Duelo para um homem e a solidão

Estreias: O AMERICANO

De: Anton Corbijn

Com: George Clooney, Thekla Reuten, Paolo Bonacelli

Um assassino é recrutado para um trabalho na Suécia, mas algo corre mal e matam-lhe a mulher que descreve como “uma amiga”. Agora, o matador quer mudar de vida, mas um chefe de poucas palavras encomenda-lhe mais um serviço. O último, pressente-se. Antes de sair, atira uma frase: “Nunca deves fazer amigos. Pensava que já sabias isso.”

Os lugares comuns ainda não pagam imposto, mas, em geral, arruínam um filme. Qualquer coisa acontece, no entanto, que iliba “O Americano” da acusação. Qualquer coisa que tem dois responsáveis claros: Anton Corbijn e George Clooney.

Passado o arranque, assentamos arraiais numa minúscula vila italiana: Castel del Monte, terra onde, no mundo real, não habitam mais de 129 almas (no filme, não parecem mais de 29). É neste lugar isolado, íngreme, de escadinhas e ruelas estreitas, labirínticas, que Clooney ficará exilado fazendo-se passar por fotojornalista de uma revista estrangeira, enquanto aguarda instruções.

A partir daqui e até final, “O Americano” vai libertar-se da incómoda mácula do cliché. Vai, aliás, seguir um registo tão próprio que nos perguntamos se o ponto de partida batido não terá sido um luxo a que se deu para depois desconstruir à vontade. Assassinos que querem mudar de vida e últimos golpes anunciam filmes de acção intensa, explosões e perseguições épicas, o herói carregando a rapariga ao colo enquanto, em segundo plano, o mundo colapsa. N’ “O Americano” não. N’ “O Americano” há um homem sozinho e calado, uma vila deserta, um assassino e um padre (Paolo Bonacelli) que passeiam e conversam, peregrinações, cafetarias pacatas e modestas oficinas automóveis. E quando vem a rapariga – teria de vir uma – é prostituta (Violante Placido. Sim, é filha de Michele Placido e devíamos chicotear-nos por só agora ouvir falar dela). O amor é pago e frio. A tensão não está na acção, mas na inércia; não vem nas explosões, mas no que estás prestes a explodir; não é o perigo que cerca o herói, é a angústia que cresce dentro dele.

O nome de Anton Corbijn era, desde logo, a promessa de uma fotografia espantosa. Não surpreende, por isso, que o seja com efeito. Do que não se estava à espera era do brilhante trabalho de som que nos coloca dentro da cabeça de Clooney e, portanto, tão sozinhos como ele. A adaptação do romance “A Very Private Gentleman”, de Martin Booth, é em grande medida contada em sons de passos, estalidos, pequenos ruídos quotidianos, rumores de conversas distantes, impactos súbitos que nos despertam do que quer que estejamos a pensar. Corbijn, que andou anos a fotografar, filmar e compor a imagem de músicos e que quando se estreou no cinema, há três anos, foi para trabalhar a figura de Ian Curtis em “Control”, trocou, de repente, a música pelo silêncio. O silêncio que desenha o contorno da solidão de um homem marcado para morrer.

Depois, há Clooney, que compõe aqui um dos papéis da sua vida. Em “Syriana”, deram-lhe um Óscar por ter engordado; veremos se agora recebe outro por emagrecer. Está duro, magro, envelhecido. Conseguiu a inexplicável proeza de deixar o charme à porta do plateau e caminha aqui como um discreto homem de mão, curvado, hábil a manejar máquinas e sempre de olhar ausente, colocado algures em qualquer coisa que aconteceu antes ou depois.

Com muito poucas palavras, de modo que cada uma delas seja certeira como a bala de um franco-atirador, “O Americano” escorre pelas escadinhas de Castel del Monte, inexoravelmente, como um fio de sangue, como a vida a perder-se. Corbijn é, por enquanto, a grande aquisição do cinema do século XXI.

AB

i, 2010.11.25

Comentários

Barreira Invisível Podcast