a minha primeira vez com carrie & co.


SEXO E A CIDADE 2

De: Michael Patrick King

Com: Sarah Jessica Parker, Kim Cattrall, Cynthia Nixon

Caras leitoras e caros leitores, isto não é uma crítica; é uma carta.

Eu não vi “O Sexo E A Cidade” – nem a série nem o primeiro filme. Lembro-me de Sarah Jessica Parker numa série chamada “Equal Justice”, no tempo em que toda a gente queria fazer outras “Teias Da Lei” e muitos rapazes da minha idade sonhavam ser advogados porque pensavam que a realidade era mais ou menos assim. Estávamos longe dos processos Casa Pia, Freeport, escutas, etc., e ninguém imaginava que Jessica Parker seria, um dia, uma estrela e que a justiça nacional se tornasse tão credível como o Professor Karamba.

Aterro, assim, no “O Sexo E A Cidade 2” como um homem primitivo descobrindo o fogo. E vejo subitamente explicados os tiques de muita jovem que tenho conhecido. Carrie e as amigas não são, suponho, o retrato das mulheres sofisticadas contemporâneas; são o original – a realidade é que as copiou. E isso é interessante, penso, no meu cérebro perplexo de neandertal, e sigo em frente, à procura do filme.

Acontece que o filme não é fácil de encontrar. É mal antigo das adaptações televisivas ao grande ecrã: tudo sabe a longo episódio, sem pausas para comerciais. Mas a primeira impressão é boa: a abertura não exclui primitivos como eu – cria um pequeníssimo prólogo em que explica como as raparigas se conheceram. Bravo, penso. É um homem que está a realizar – percebe o meu drama. Confortado, parto em busca do problema e ei-lo: Carrie conseguiu, finalmente, viver com o homem da vida dela; Charlotte é feliz, casada e com filhas; Miranda também casada; e Samantha (sim, não sou tão pré-histórico que nunca tenha visto fotos dessa monumental Kim Cattrall) está lá na sua vida livre e debochada. O problema é, pois, que fazer com aquela estabilidade; que perseguir; onde encontrar, outra vez, o “thrill”. Só que “O Sexo E A Cidade 2” nunca vai dar resposta a isto nem parece sequer preocupado em fazê-lo. Tudo é um pretexto para as amigas voltarem a ter uma aventura só delas, qual John Rambo a quem vão desinquietar para mais uma carnificina, em nome dos velhos tempos.

E essa aventura vem sob a forma de viagem despropositada aos Emirados Árabes Unidos. Até lá chegarem, já passou coisa de hora e um quarto, o mais longo primeiro acto da história do cinema, e falta outro tanto para o final. Sim, o filme tem duas horas e meia, a duração dum épico, mas com sapatos em vez de espadas, malas em vez de escudos, tipos com abdominais hiper-desenvolvidos em vez de dragões, apartamentos sumptuosos em vez de discursos de Russell Crowe. E aí penso, sempre na minha figura cavernosa descobrindo uma civilização: isto é o James Bond delas. Nós, tipos, temos Bond, com carro, gadgets, bond-girls e a missão de salvar o mundo; elas têm Carrie & amigas, roupas, maquilhagem, luxos, os samantha-boys e a missão de voltar a casa sem partir os stilettos.

No entanto, há uma diferença profunda: é que, em James Bond, é regra de ouro que todos os gadgets apresentados vão servir para alguma coisa, algures no filme, e em “O Sexo E A Cidade” nada serve para absolutamente nada. É tudo gloriosamente inútil.

Há algumas boas piadas e, para os homens, a sinceridade de não nos convidar a ficar. Apenas nos abriram a porta para espreitarmos um pouco dessa vida com que talvez as mulheres sonhem enquanto assistimos ao enésimo rescaldo da jornada futebolística. Mas isto não é cinema. É um catálogo em movimento, uma longa conversa de amigas, um sonho inofensivo e, certamente, saudável. Mas é só.

E, por isso, caras leitoras e caros leitores, é que este texto não é uma crítica. É que “O Sexo E A Cidade 2” também não é um filme.

AB

i, 2010.06.03

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