nova iorque e a vulgaridade do amor


NEW YORK I LOVE YOU

De: Mira Nair, Shekhar Kapur, Brett Ratner, etc

Com: Natalie Portman, Ethan Hawke, Andy Garcia

Já conversámos sobre isto antes: Nova Iorque é, certamente, a cidade preferida do cinema. Mas, se um lugar tão filmado pode ser tão familiar mesmo a quem nunca lá foi, isso significa também que se torna cada vez mais difícil dizer algo de novo sobre ele. “New York I Love You” cai nessa armadilha do primeiro ao último minuto e deixa-nos, à saída, com a serena sensação de que escreveríamos todas aquelas histórias sem nunca lá ter posto os pés.

Os filmes-antologia são sempre objectos curiosos e com motivos de interesse, mas a verdade é que raramente são bons. É virtualmente impossível que uma série de autores consiga, com curtas-metragens, pouco orçamento e pouco tempo, urdir a teia coesa e coerente de uma longa. Tornam-se repetitivos e aborrecidos nas transições, deixando ficar à superfície apenas os rasgos de génio de um ou outro autor. Vimo-lo em “Paris, Je T’Aime”, onde 22 directores faziam a sua homenagem à cidade-dita-luz. E vimo-lo também, apesar de tudo com melhores resultados, em “Cada Um O Seu Cinema”, onde 34 curtas escreviam uma ode ao seu próprio ofício. Tanto num projecto como noutro, estavam alguns dos maiores realizadores do mundo atrás das câmaras e, mesmo assim, o saldo final não ia muito além da curiosidade, do exótico.

E assim chegamos a Nova Iorque, porque alguém se lembrou que, se Paris já tinha o seu álbum de fotografias, Nova Iorque também tinha de ter um. Acontece que, em 1989, já se fizera algo assim, como todos sabemos. Com apenas três directores, mas três directores que são, simplesmente, três dos maiores cineastas de sempre: Coppola, Scorsese e Woody Allen, contaram-se as “New York Stories”. Também com os seus altos e baixos, sem dúvida, mas que se haviam de tornar uma pequena pedra preciosa para cinéfilos.

Agora, este “New York I Love You” parece ignorar alegremente todos estes dados. Junta dez realizadores mais um para operar as transições e faz um daqueles filmes timex – que não atrasam nem adiantam. Repetitivo, muito pouco original, profundamente incompleto. Quase todas as histórias são sobre um rapaz e uma rapariga que se conhecem, acidentalmente, nas ruas de Nova Iorque. Começam a conversar a partir da situação mais batida de sempre – a propósito de um cigarro ou de pedir lume – e embalam em divagações sobre: a) o amor b) as virtudes de Nova Iorque, coisa de que duvidamos que os nova-iorquinos alguma vez falem, à parte nos aniversários do 11 de Setembro. Há hindus, judeus, orientais, muitos ocidentais, mas, dado bizarro, nenhum negro.

Já sabíamos do perigo das antologias de micro-filmes, mesmo com grandes realizadores. Pois, o caso de “New York I Love You” é mais grave: é que está entregue a uma segunda divisão que permite que até Natalie Portman se estreie atrás das câmaras – e, de resto, também Scarlett Johansson, mas o seu segmento era tão bom ou tão mau que não foi incluído neste corte. De resto, entre os dez responsáveis, temos uma indiana, um paquistanês, dois israelitas, um chinês, um japonês, um turco-alemão e três americanos – um da Florida, outro da Califórnia e outro do Michigan. Bem sabemos que Nova Yorque é o melting pot por excelência, mas diga, amigo leitor: para homenagear Nova Iorque, não seria sensato ter, pelo menos, um ou dois realizadores nova-iorquinos?

Apesar de tudo, os segmentos de Shekhar Kapur, Joshua Marston e Yvan Attal valem a pena e, eventualmente, compensam o bilhete.

Cumpre-nos informar, por fim, de que estão já previstos mais “I Love Yous” para Jerusalém, Rio e Xangai. Para quando, pergunto, um Moscavide, umas Caldas, uma Vila Pouca de Aguiar?

AB

i, 2009.11.05

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