um homem não é de ferro


HOMEM DE FERRO 2

De: Jon Favreau

Com: Robert Downey Jr., Mickey Rourke, Don Cheadle

Iron Man é Tony Stark, um milionário guru da tecnologia. Toda a gente o sabe. Ao contrário dos outros super-heróis, Iron Man não é uma entidade secreta ou sequer uma segunda personalidade: é Tony Stark, metido dentro do super-fato que concebeu graças às duas únicas coisas que possui e que referimos logo na primeira frase: dinheiro e conhecimento tecnológico, ambos herdados do falecido pai, criador dum império cuja exposição anual está a ser inaugurada no arranque do filme. Miúdas giras a dançar, a bandeira americana em fundo, uma canção batida de AC/DC e Tony Stark / Robert Downey Jr. a dar show para uma plateia furiosamente histérica. Não é um super-herói; é uma estrela pop e por isso é que Downey Jr. é perfeito para o papel: porque não tem o físico nem o ar impoluto dum super-herói, mas tem a vaidade e o semblante cínico duma vedeta. A cena de abertura – na verdade, um videoclip enxertado no início da película – dá o tom para todo o filme: espalhafato, numa palavra. Ou, se a quisermos declinar em várias: ostentação, canções óbvias, fogo de artifício e muita jovem californiana com implantes DD a gritar enquanto Downey Jr. faz o seu espectáculo pessoal.

Iron Man não tem, pois, no fundo do seu drama, os conflitos que servem de matriz à restante família de justiceiros mascarados. Não tem de esconder quem é; pelo contrário: faz alarido em mostrar, constantemente, quem é – um egocêntrico megalómano e exibicionista – e quem julga que é – o messias high-tech que trouxe gratuitamente a paz à América e ao Mundo. A única angústia que o consome – e não é pequena, convenhamos – é estar a morrer. Viver dum elemento que tem incrustado no peito, mas que, está, paradoxalmente, a matá-lo. Nesse particular, Tony Stark / Iron Man é quase humano, mas onde nós temos um coração, ele tem uma liga metálica.

Pejadinho de estrelas e com um ritmo de entregas de prémios MTV, “Homem De Ferro 2” vai levando água ao seu moinho. Quando nos começamos a cansar de Downey Jr., entra o vilão Mickey Rourke. Quando nos cansamos de tanta testosterona, entra Sam Rockwell, no papel de idiota útil. Quando nos cansamos de tonteria, vem Don Cheadle, a voz da razão. Quando nos cansamos de grilos falantes, irrompe Scarlett Johansson. Quando nos cansamos de mulheres impossíveis, chega Gwyneth Paltrow, a dar gritinhos e a fingir que é a girl next door. E, para abençoar tudo e todos com a graça da coolness, ainda aterra, perto do fim, Samuel L. Jackson.

“Homem De Ferro 2” é um “Transformers” em melhorzinho. Feito por gente com cicatrizes em vez de borbulhas. Mas não mais que isso. Está brilhantemente construído para entreter a audiência e arrancar-lhe reacções de diversão e espanto a cada três minutos. Ora, é uma corrida de carros, ora o novo homem-máquina, ora Scarlett Johansson a distribuir pancadaria como gente grande, ora Iron Man a defrontar o único adversário que o pode deter: outro Iron Man. Missão cumprida, portanto.

Para quem quiser um pouco mais é que não há nada. À superfície, só se vê metal; debaixo do metal, há botox – sim, vêem-se melhor as rugas de Rourke que as de Downey Jr, por mais impossível que possa parecer. É preciso, pois, escavar muito para encontrar alguma coisa de verdade e, quando lá chegamos, percebemos que sobrou muito pouca. A historieta de amor é despudoradamente insípida e óbvia; a razão de existir de algumas personagens pouca ou nenhuma; a vingança do vilão bastante tépida; e a angústia do protagonista tão facilmente resolvida que quase não se dá por ela.

Este é Iron Man, o Homem de Ferro. Talvez um Homem Que Engoma tivesse mais substância.

AB

i, 2010.04.29

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