noite americana

A quoi penses-tu, Séverine?


Segunda-feira, Novembro 23
 
o milagre em sant'anna

De: Spike Lee

Com: Derek Luke, Michael Ealy

Depois de acusar Clint Eastwood de filmar a guerra só com brancos, Lee desencantou um episódio da II Guerra em que um grupo de negros fica retido numa aldeia da Toscânia. Com alguns bons momentos, é longo, demagógico e, sobretudo, racista. Uma italiana chega a dizer que eles, negros, são diferentes dos outros americanos. Imagine-se o filme que dissesse isto acerca dos brancos. Nas palavras cristalinas de Clint a Spike: “Shut up”.

AB

i, 2009.11.19



Domingo, Novembro 22
 
um conto de natal

De: Robert Zemeckis

Com: Jim Carrey, Gary Oldman

Zemeckis continua deliciado com a animação digital a partir de actores reais. Desta vez, coloca-a ao serviço do clássico de Dickens em que Mr. Scrooge, o rei dos sovinas, faz o seu percurso de redenção, até ceder aos encantos do Natal. Era impossível fugir ao moralismo e previsibilidade da história, mas o resultado é empolgante. Um conselho: se vir este filme, não beba – o 3D é mais agitado que a A1 numa sexta ao fim do dia.

AB

i, 2009.11.29



 
o swing e uma cabana

PINTAR OU FAZER AMOR

De: Arnaud & Jean-Marie Larrieu

Com: Sabine Azéma, Daniel Auteuil, Sergi López

Um casal acabado de entrar na reforma procura uma segunda vida. Quando descobrem uma bela casa de campo, mudam-se para lá para dedicar o muito que ainda resta dos seus dias ao binómio de acções enunciado pelo título. A solidão do bosque, contudo, provoca-lhes uma certa carência de convívio humano e vai daí, em breve, ei-los já a dedicar-se ao swing com um casal amigo, composto pelo presidente da junta local e sua jovem companheira. Quando Adão e Eva – sim, o presidente e sua rapariga chamam-se assim – partem para outro país, William e Madeleine fazem planos de ir ter com eles, mas, rapidamente, aparece outro casal pela sua concorrida estância campestre e, ao fim de poucos minutos, já está tudo, tranquilamente, a trocar de parceiro. Por razões que a razão desconhece, este filme esteve na corrida à Palma de Ouro 2005. Se o leitor confiar em Cannes, compre o DVD. Se confiar no crítico, prefira outra coisa qualquer.

Veja também: Trabalhos bem mais interessantes destes actores como “Nada A Esconder”, Michael Haneke, ou “Smoking / No Smoking”, Alain Resnais.

AB

i, 2009.11.18



Quarta-feira, Novembro 18
 
bem-vindo a casa

TEMPOS DE VERÃO

De: Olivier Assayas

Com: Juliette Binoche, Charles Berling, Edith Scob

De vez em quando, surge um filme como “Tempos De Verão” que deixa de fora os grandes conflitos e cruzadas, para se concentrar num tema tão intangível como a ideia de casa. São oportunidades doces. Porque quando um autor fala sobre a sua casa, a casa mãe, casa da infância, da família, casa ponto de partida, com todas as suas especificidades e idiossincrasias, acontece um estranho milagre de identificação – eu, espectador, que assisto e que tenho uma casa de infância tão diferente, tão absolutamente oposta àquela, encontro-a sempre ali, na ideia de casa do autor. Se o filme falar a verdade – e o filme de Assayas fala. E essa verdade começa pelo título: “Tempos De Verão”, uma das mais justas declinações da ideia dessa casa materna, donde não vem o futuro, mas jamais virá o mal. Um filme sólido e preciso que parte da morte da matriarca de uma família para investigar o valor das coisas com que enchemos os nossos quartos.

Veja também: “Andando”, Hirokazu Kore-Eda, “Casa De Lava”, Pedro Costa (a propósito de Edith Scob).

AB

i, 2009.11.14



Terça-feira, Novembro 17
 
é o fim do mundo como o conhecemos (e eu sinto-me bem)

2012

De: Roland Emmerich

Com: John Cusack, Amanda Peet, Chiwetel Ejiofor

Esqueçam “O Dia Da Independência” e “O Dia Depois De Amanhã”. “2012” é “o” filme-catástrofe. O Cristo-Redentor tomba do Pão de Açúcar, a cúpula da Basílica de S. Pedro rola pela praça, a Torre Eiffel, a Capela Sistina, a Casa Branca – vai tudo desta para melhor. É o regresso do fim do mundo, mas ainda mais assustador e irresistível.

De acordo. Não é com esta descrição que convencemos a jovem intelectual do 2º esquerdo a um serão de cinema, mas há sempre a loura atlética do 5º frente. Ou a aspirante a terrorista suicida que conhecemos no facebook. O importante é que nem só de filmes indy e dramas psicológicos vive um cinéfilo – de vez em quando, todos precisamos dum blockbuster para desenjoar da metafísica.

Roland Emmerich é um especialista do género. Ele e Michael Bay, aliás, disputam um prémio qualquer atribuído ao tipo que, no fim da carreira, tiver feito explodir mais quilómetros quadrados de civilização. Mas Bay tem a mania das guerras, com umas historietas de amor à mistura, e Emmerich é o apocalipse puro e simples. E anda a apurar o estilo, em busca da calamidade perfeita, qual pedra filosofal do colapso. Com “2012”, está quase lá.

O enredo, em si, não importa nada. O Sol anda a fazer umas explosões maiores que o normal e o núcleo da Terra ressente-se. Lentamente, derrete-se a matéria que segura a crosta ao manto e os continentes começam a viajar alegremente por aí, chocando, estilhaçando-se, invertendo pólos e hemisférios, submergindo, enfim, todo o género de catástrofe, numa espécie de “Best Of” das tragédias naturais. Junta-se-lhe uma profecia maia qualquer que diz que o mundo vai acabar em 2012 e estamos conversados. O resto são as maravilhas do digital. Apontem nas vossas agendas: na 82ª Cerimónia de Entrega dos Óscares, três vão direitinhos para “2012”: os dois do som e os efeitos especiais.

Mas se quiser tentar um argumento derradeiro com a jovem intelectual, diga-lhe que, na verdade, quer ver o filme porque ouviu dizer que os actores vão bem. John Cusack na liderança, Amanda Peet pela terceira vez a seu lado, Danny Glover e Woody Harrelson em bons secundários, a sempre agradável à vista Thandie Newton e um nome que já vai valendo a dificuldade de o decorar: Chiwetel Ejiofor (“Infiltrado”, “Filhos Do Homem”).

É claro que vai levar com muita demagogia sobre quem deve ser salvo para assegurar a continuidade da Espécie e quem tem de ficar para trás. Sobretudo, conte com muita americanice. É defeito antigo de Roland Emmerich – indivíduo que, para que conste, é alemão. Temos outra vez um Presidente mais bondoso que Gandhi, uma família presidencial mais cândida que os três pastorinhos e dois terços do filme só se ocupam mesmo da destruição dos Estados Unidos – o facto de o mundo inteiro estar a ir pelo cano é um detalhe chato que alguém se lembra de apontar ao fim de hora e meia.

Mas, a partir daqui, “2012” preenche as quotas: vai a todas as super-potências, incluindo emergentes– Rússia, Brasil, Índia, China – e distribui tempos de antena, guardando África para um final poético, num truque hábil, mas que lhe fica bem. O resto são duas horas e meia de prender a respiração. Tentamos resistir porque é só mais um blockbuster desmiolado, mas temos o pé a bater de nervoso miudinho, a mão agarrada à cadeira, a cabeça a dar, em silêncio, instruções às personagens: corre! Salta! Não vás por aí! Olha a miúda!

Enfim, momentos embaraçosos que nunca confessaremos. “2012” é apenas mais um filme-catástrofe, uma mentira megalómana. Mas, se um dia, o cinema deixar de mentir, terá abdicado de grande parte da sua missão.

AB

i, 2009.11.12



Segunda-feira, Novembro 16
 
os sorrisos do destino

De: Fernando Lopes

Com: Rui Morrison, Ana Padrão

A história de dois homens que se tornam amigos depois de um descobrir que o outro é amante da mulher tinha potencial. Mas o filme limita-se a pedir que acreditemos nisto, sem nunca executar os passos desse golpe de magia. Refugiado em constantes citações, jamais enfrenta a dor, o amor e a amizade que alega estarem em jogo. Maravilhosamente filmado, toda a arte de Lopes é aqui desperdiçada a mascarar um drama falhado.

AB

i, 2009.11.12



Domingo, Novembro 15
 
o outro lado da lua

De: Duncan Jones

Com: Sam Rockwell, Kevin Spacey (voz)

Muito “2001” e “Space Oddity”, “O Outro Lado Da Lua” mostra que Duncan Jones não é apenas o filho de David Bowie, mas um cineasta muito promissor. Sam é um astronauta a terminar um contrato de três anos na supervisão de uma estação energética na Lua, até ao dia em que descobre que há mais alguém no planeta: ele próprio. Um tratado sobre a solidão humana num excelente sci-fi metafísico com um agradável travo retro.

AB

i, 2009.11.12



 
super bock super spock

STAR TREK

De: J.J. Abrams

Com: Chris Pine, Zachary Quinto, Eric Bana

Se o Natal fosse quando um homem quisesse, como alguns líricos sugerem, um tipo arruinaria as poupanças da família em DVD. Na vertigem de lançamentos da época, chega a reinvenção de “Star Trek”. Apesar das suas hordas de fanáticos, a saga nunca fui, legitimamente, tão amada como “A Guerra Das Estrelas”, e a magia que tinha foi delapidada, a pouco e pouco, de realizador em realizador, de versão em versão. Até agora. Às mãos de J. J. Abrams, “Star Trek” renasce ao mais alto nível, em ficção científica de top, com um grande argumento, grande acção, um grande vilão (Eric Bana) e até Leonard Nimoy, o próprio Mr. Spock. Dispensavam-se os brindes para os adolescentes – Kirk é um rebelde que não segue regras (bocejo); as meninas passeiam de mini-saia (muito útil no Espaço) e faz alguma aflição ver a Enterprise entregue a tanto imberbe – mas a verdade é que “A Guerra Das Estrelas” já morreu e “Star Trek” está de novo no hiperespaço.

Veja também: A boa ficção científica em cartaz: “Os Substitutos”, Jonathan Mostow, e, a partir de amanhã, “O Outro Lado Da Lua”, Duncan Jones.

AB

i, 2009..11.11



Terça-feira, Novembro 10
 
o código são pedro

ANJOS E DEMÓNIOS

De: Ron Howard

Com: Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer

Enquanto chega às livrarias “O Símbolo Perdido”, novo romance de Dan Brown e candidato a roubar às peúgas o troféu de presente mais oferecido deste Natal, chega ao DVD “Anjos E Demónios”, livro anterior a “O Código Da Vinci”, mas sequela dele no cinema. Brown, a bimby do policial, e Ron Howard, seu fiel adaptador, repetem a receita: o simbologista Robert Langdon, uma miúda gira, charadas, obras de arte e a inevitável sociedade secreta. Qual McDonald’s a abrir franchises mundo fora, Brown e Howard deixam Paris e, antes da sucursal de Washington, vêm abrir os balcões de Roma e Vaticano. Apesar de tudo, o resultado é melhor – não era difícil. Um pouco menos teórico, melhores sequências de acção e enigmas que sobem do nível zero de “O Código Da Vinci” para o grau principiante. Neste volume, os Illuminati roubam anti-matéria para tentar explodir o Vaticano. Mal sabiam eles que bastava dar uma ligadela a José Saramago.

Veja também: Para manter o nível do jogo,“O Tesouro: Livro Dos Segredos”, Jon Turteltaub. Para subir, “O Nome Da Rosa”, Jean-Jacques Annaud.

AB

i, 2009.11.07



Segunda-feira, Novembro 9
 
nova iorque e a vulgaridade do amor

NEW YORK I LOVE YOU

De: Mira Nair, Shekhar Kapur, Brett Ratner, etc

Com: Natalie Portman, Ethan Hawke, Andy Garcia

Já conversámos sobre isto antes: Nova Iorque é, certamente, a cidade preferida do cinema. Mas, se um lugar tão filmado pode ser tão familiar mesmo a quem nunca lá foi, isso significa também que se torna cada vez mais difícil dizer algo de novo sobre ele. “New York I Love You” cai nessa armadilha do primeiro ao último minuto e deixa-nos, à saída, com a serena sensação de que escreveríamos todas aquelas histórias sem nunca lá ter posto os pés.

Os filmes-antologia são sempre objectos curiosos e com motivos de interesse, mas a verdade é que raramente são bons. É virtualmente impossível que uma série de autores consiga, com curtas-metragens, pouco orçamento e pouco tempo, urdir a teia coesa e coerente de uma longa. Tornam-se repetitivos e aborrecidos nas transições, deixando ficar à superfície apenas os rasgos de génio de um ou outro autor. Vimo-lo em “Paris, Je T’Aime”, onde 22 directores faziam a sua homenagem à cidade-dita-luz. E vimo-lo também, apesar de tudo com melhores resultados, em “Cada Um O Seu Cinema”, onde 34 curtas escreviam uma ode ao seu próprio ofício. Tanto num projecto como noutro, estavam alguns dos maiores realizadores do mundo atrás das câmaras e, mesmo assim, o saldo final não ia muito além da curiosidade, do exótico.

E assim chegamos a Nova Iorque, porque alguém se lembrou que, se Paris já tinha o seu álbum de fotografias, Nova Iorque também tinha de ter um. Acontece que, em 1989, já se fizera algo assim, como todos sabemos. Com apenas três directores, mas três directores que são, simplesmente, três dos maiores cineastas de sempre: Coppola, Scorsese e Woody Allen, contaram-se as “New York Stories”. Também com os seus altos e baixos, sem dúvida, mas que se haviam de tornar uma pequena pedra preciosa para cinéfilos.

Agora, este “New York I Love You” parece ignorar alegremente todos estes dados. Junta dez realizadores mais um para operar as transições e faz um daqueles filmes timex – que não atrasam nem adiantam. Repetitivo, muito pouco original, profundamente incompleto. Quase todas as histórias são sobre um rapaz e uma rapariga que se conhecem, acidentalmente, nas ruas de Nova Iorque. Começam a conversar a partir da situação mais batida de sempre – a propósito de um cigarro ou de pedir lume – e embalam em divagações sobre: a) o amor b) as virtudes de Nova Iorque, coisa de que duvidamos que os nova-iorquinos alguma vez falem, à parte nos aniversários do 11 de Setembro. Há hindus, judeus, orientais, muitos ocidentais, mas, dado bizarro, nenhum negro.

Já sabíamos do perigo das antologias de micro-filmes, mesmo com grandes realizadores. Pois, o caso de “New York I Love You” é mais grave: é que está entregue a uma segunda divisão que permite que até Natalie Portman se estreie atrás das câmaras – e, de resto, também Scarlett Johansson, mas o seu segmento era tão bom ou tão mau que não foi incluído neste corte. De resto, entre os dez responsáveis, temos uma indiana, um paquistanês, dois israelitas, um chinês, um japonês, um turco-alemão e três americanos – um da Florida, outro da Califórnia e outro do Michigan. Bem sabemos que Nova Yorque é o melting pot por excelência, mas diga, amigo leitor: para homenagear Nova Iorque, não seria sensato ter, pelo menos, um ou dois realizadores nova-iorquinos?

Apesar de tudo, os segmentos de Shekhar Kapur, Joshua Marston e Yvan Attal valem a pena e, eventualmente, compensam o bilhete.

Cumpre-nos informar, por fim, de que estão já previstos mais “I Love Yous” para Jerusalém, Rio e Xangai. Para quando, pergunto, um Moscavide, umas Caldas, uma Vila Pouca de Aguiar?

AB

i, 2009.11.05



Domingo, Novembro 8
 
os irmãos bloom

De: Rian Johnson

Com: Adrien Brody, Rachel Weisz

Nunca deixes que a verdade estrague uma boa história. Alguns de nós sabem disso; “Big Fish” explicou-o; “Os Irmãos Bloom” recordam-no. Três dos melhores actores da sua geração – Brody, Weisz e Mark Ruffalo – e a fabulosa Rinko Kikuchi (“Babel”) são encenados numa grande mentira que fica à beirinha das cinco estrelas. Possível nomeação ao Óscar de melhor argumento e um dos melhores filmes que ainda verá em 2009. Aproveite.

AB

i, 2009.11.05



 
step up 2

De: John Chu

Com: Briana Evigan, Robert Hoffman

Num tempo em que tanto se fala de pandemias, valeria a pena reflectir sobre a origem do vírus da dança. Depois de 51 programas de entretenimento na RTP e 329 filmes sobre o assunto, o filão continua activo. Em “Step Up 2”, uma jovem de classe baixa entra para a escola de artes de Maryland e vai envolver-se, é claro, com um não menos jovem candidato a dançarino de classe alta. Tanto quanto sabemos, não entra o Marco Di Camilis.

AB

i, 2009.11.05



Segunda-feira, Novembro 2
 
a transfusão

O SANGUE

De: Pedro Costa

Com: Pedro Hestnes, Nuno Ferreira, Inês de Medeiros

Quando vemos os filmes de Pedro Costa, é inevitável perguntarmo-nos se ele verá de facto o mundo a partir do mesmo país que nós, com os mesmos políticos, os mesmos Media, a mesma depressão. Cineasta absoluto, escultor sereno de cada instante das suas obras, da palavra à luz, Costa tem tido em 2009, finalmente, o ano da aclamação: retrospectivas integrais na Photoespaña e na Tate, o Guardian a chamar-lhe o Beckett do Cinema e Cannes a ovacionar a estreia mundial de “Ne Change Rien”. Por cá, a Midas dedica-lhe a reedição de “Onde Jaz O Teu Sorriso?” e o lançamento de “O Sangue”, vinte anos depois da estreia em Veneza, em nova cópia digital de alta definição 2k. O resultado final é espantoso, os extras preciosos e a própria edição, enquanto objecto físico, uma prova de extremo cuidado e bom gosto. O filme é um tratado sobre a orfandade, tão belo e cru como as suas personagens, a crescer, em directo, diante dos nossos olhos.

Veja também: “Uma Abelha Na Chuva”, Fernando Lopes.

Leia também: “Cem Mil Cigarros – Os Filmes De Pedro Costa”.

AB

i, 2009.10.31



Domingo, Novembro 1
 
o fantasma da ópera-rock

MICHAEL JACKSON – THIS IS IT

De: Kenny Ortega

Com: Michael Jackson (& his crew)

Felizmente, avisam-nos logo nos créditos iniciais: “For the fans”. O documentário montado a partir das filmagens dos ensaios daquela que seria a última tour de Michael Jackson é mesmo isso: algo para os fãs e nada mais. Para lá da porta dessa igreja, não converterá ninguém. Nada o liga a uma sala de cinema. É exibido nas salas porque alguém quer ganhar dinheiro. Porque o lugar de “This It” é na televisão, no DVD, em ecrãs ao ar livre para a multidão devota replicar os passos de dança e chorar em conjunto. Mas isso seria pouco lucrativo.

Entretenimento tépido, rapidamente percebemos que, no fundo, estamos ali por um qualquer interesse coscuvilheiro e mórbido: queremos desvendar naquelas imagens um prenúncio do fim ou uma frase avulsa para transformar em epitáfio. Mas, também desse ponto de vista, ficamos mal servidos: nada há neste “making of” sobre Michael Jackson, o homem desequilibrado e desfeito, a caminho dum final trágico. Só o performer, o profissional. Ainda bem.

Em si, o documento é uma edição tarefeira dos melhores momentos de horas de material, tentando criar artificialmente uma lógica evolutiva que se assemelhe a uma narrativa que, na verdade, não existe. Um compacto de ensaios com músicos, bailarinos, back vocals, meia dúzia de comentários de Jacko e os depoimentos entusiasmados dos jovens devotos que, agora, tinham uma oportunidade de trabalhar com “Michael”. E dizem “Michael”, mas o que sai da sua boca é “Messias”. Visualmente, os momentos mais interessantes são os trechos da encenação digital que se estava a preparar em torno da música. E, aí, valha a verdade, parece ter-se perdido um grande espectáculo. Mas, por escassez de material ou critério simplista, a maior parte do tempo é passada a ouvir composições inteiras de Jackson, numa espécie de disco “best of” com imagem.

Findo isto, que resta? O que realmente interessa: Michael Jackson. O que revelarão estas imagens behind the scenes de um homem que sempre vimos encenado para aparecer em público? Quem é ele? Pois bem. Não é uma ilusão nem uma desilusão. É um fantasma. Meio anjo, meio esqueleto. Sem sexo nem idade nem sentido de humor, mas, apesar de tudo, com alguns estados de alma. Um tipo rigoroso e profissional, cem por cento concentrado no que está a fazer. Um tipo picuinhas, chato, que está sempre a corrigir os músicos e a acrescentar que é por amor que o faz, e que, quando é ele a enganar-se, diz “é para isto que os ensaios servem”. No cômputo geral, parecia, afinal, um fulano comum, um bocadinho irritante, sem grandes vedetismos, mas totalmente destituído da aura / presença / personalidade inspiradora que todos lhe atribuíam ao longo da vida e que o documentário não cessa de propalar.

“This Is It” é a venda final da imagem que Jackson publicitou toda a vida. Alguém que não fazia uma boa canção há vinte anos, mas um artista de causas que cantava contra o racismo e de negro passou a branco. Que era preciso salvar as criancinhas e acabou a pagar milhões para arquivar uma acusação de pedofilia. Que tínhamos de ajudar os pobrezinhos e era um consumista extravagante. Que era preciso salvar o mundo, mas deixa uma pegada ecológica – resultante da megalomania de tudo o que fazia: tours, propriedades, estilo de vida – ao nível de um pequeno país africano. Tudo embrulhado em mensagens infantis sobre quão importante é o amor e urgente salvar a Natureza, porque a Natureza é muito boa para nós.

No fundo, Michael Jackson foi um ídolo à medida da vulgaridade do seu tempo. Apesar de tudo, muitos furos acima dos kanye wests e afins que julgam ter-lhe sucedido.

AB

i, 2009.10.29



Sábado, Outubro 31
 
os substitutos

De: Jonathan Mostow

Com: Bruce Willis, Radha Mitchell

Num futuro próximo, vivemos protegidos em casa enquanto o nosso duplo melhorado age no mundo real. Evolução de clones, avatares e redes sociais, “Os Substitutos”, adaptação da graphic novel de Robert Venditti e Brett Weldele, inscreve-se na honrosa tradição filosófica sci-fi de K. Dick e Asimov, reflectindo sobre o que é, afinal, humano. Grande ideia e notável economia narrativa, fragilizadas apenas por alguns clichés e soluções apressadas.

AB

i, 2009.10.29



Sexta-feira, Outubro 30
 
birdwatchers - a terra dos homens vermelhos

De: Marco Bechis

Com: Claudio Santamaria, Alicelia Batista Cabreira

Uma pequena história representativa dum drama de proporções históricas, distinguida com o Prémio Amnistia Internacional 2009. Um grupo de índios brasileiros decide abandonar a reserva indígena e regressar à terra dos seus ancestrais, mas, hoje, essa terra é já propriedade dum rico latifundiário branco. Uma boa proposta que culmina num notável duelo sobre o conceito de terra natal, sem diabolizar nenhum dos lados.

AB

i, 2009.10.29



 
a oeste do paraíso

CÉU VERMELHO

De: Robert Wise

Com: Robert Mitchum, Barbara Bel Geddes, Robert Preston

A dado passo, Robert Wise deve se ter fartado de só ter homens na sala para ver os seus filmes e apontou directamente aos meigos corações femininos. E, então, inventou “West Side Story” e “Música No Coração”. Mas, antes, costumava ser um hábil director de westerns. “Céu Vermelho” é a prova disso mesmo, com um cowboy solitário a fazer justiça pelas próprias mãos, tal como manda a lei. Jim Garry é um homem misterioso que chega às margens de um rio onde se joga uma contenda entre colonos e um rico criador de gado. Vem para ajudar um dos lados em disputa, mas cedo vai mudar-se para o adversário porque, em terra de ninguém, a única coisa que não se deve atraiçoar é a própria consciência. Garry, aliás, Robert Mitchum, domina o filme com uma impressionante presença física e um olhar que rouba todas as cenas. E uma daquelas velhas virilidades cinematográficas que fazem o másculo espectador sentir-se do tamanho dum hamster.

Veja também: Outros Mitchum recentemente editados: “Raquel, A Escrava Branca”, Norman Foster, ou “Quando As Viúvas Querem Casar”, Don Hartman.

AB

i, 2009.10.28



Domingo, Outubro 25
 
nenhum sexo, muitas mentiras e algum vídeo

O DELATOR!
De: Steven Soderbergh
Com: Matt Damon, Melanie Linskey, Scott Bakula
Não deve haver outro director em Hollywood que trabalhe tanto quanto Steven Soderbergh. Não será o melhor realizador do mundo nem o pior, mas é preciso admirar alguém que fabrica treze filmes nos últimos dez anos, arriscando-se sempre em diferentes formas narrativas. Só de 2000 para cá, foram os três actos da série “Ocean”, as duas partes de “Che”, os projectos indy “Full Frontal”, “Bubble” e o recente “The Girlfriend Experience” (que só veremos em DVD), os galardoados “Erin Brockovich” e “Tráfico”, a tentativa de ser clássico em “O Bom Alemão”, a de ser sci-fi em “Solaris” e, agora, “O Delator!”, uma experiência que é qualquer coisa como “Apanha-me Se Puderes”, se “Apanha-me Se Puderes” tivesse sido feito pelos Coen em vez de Spielberg.
Soderbergh e o argumentista Scott Z. Burns adaptam o livro de Kurt Eichenwald “The Informant – A True Story”, injectando-lhe um segundo texto que salva a história do tédio: o fluxo de consciência do protagonista Mark Whitacre. Essa voz interior, debitada em off entre cenas e silêncios, contém as suas reflexões mais ou menos avulsas, as impressões que lhe vão surgindo, as pequenas histórias que lhe ocorrem, mas cuja duvidosa relação com os acontecimentos vai pondo a nu a peculiar forma que Whitacre tem de ver o mundo.
Aparentemente, ele é um funcionário zeloso da ADM, uma empresa ligada à produção de aditivos alimentares. Mas, de um momento para o outro, dá por si num esquema intercontinental de concertação ilegal de preços, enquanto é transformado em espião do FBI, à procura de provas que sustentem aquela tese fantástica.
Durante dois anos e meio, Whitacre aguenta as pressões do jogo duplo e consegue que a ADM seja condenada, mas, a pouco e pouco, começa a deixar escapar contradições, descobrindo a sua mitomania e, mais grave que isso, um conjunto de manobras ilegais em seu proveito pessoal.
Matt Damon constrói uma personagem fabulosa. Gordo, de bigode, com um penteado terrível, óculos de nerd e fatos baratos, custa a crer que seja mesmo ele dentro daquela criatura ambígua, em quem o espectador nunca confia, mas também não é capaz de condenar. O Whitacre de Damon não é o burlão maligno com pele de cordeiro nem o bom malandro que ganha sempre a simpatia da audiência. É outra coisa algures entre a criança grande e o caso grave de psicose. Não quer ser espião, mas, depois, convence-se de ser mesmo um agente secreto. Não encontra verdadeiro mal nas suas acções porque os grandes é que são os maus da fita. No fundo, é um invulgar caso de culpado inocente. Modelou a realidade à sua medida e, por isso, em consciência, esteve sempre do lado certo.
Nada há de errado em “O Delator!”, excepto aquele que é um dos poucos traços unificadores da obra de Soderbergh: ser demasiado cerebral. Está lá tudo e é tudo bem feito, mas falta a vibração, a paixão, o risco de que se fazem os grandes filmes. O seu rasgo está todo em Damon, um actor portentoso frequentemente subvalorizado. Segundo a Forbes, é a estrela mais rentável da actualidade: 29 dólares de receita por cada dólar que lhe pagam. Mas é raro ler ou ouvir quem faça justiça a uma carreira que, tendo começado ao lado de Ben Affleck, rapidamente voou para as mãos de gente como Spielberg, Redford ou Scorsese.
Depois de Jamie Foxx n’ “O Solista”, temos talvez aqui o segundo candidato ao Óscar. É claro que nunca ganhará. Não é personagem que forneça assuntos bonitos ao discurso de melhor actor. Mas sempre seria um princípio de justiça com Damon. E, afinal, o autismo de Whitacre até combinaria bem com muito do que se passa no Kodak Theatre.
AB
i, 2009.10.22


Sábado, Outubro 24
 
playboy americano

Realização: David Mackenzie
Com: Ashton Kutcher, Anne Heche

Ashton Kutcher, um tipo célebre por ser casado com Demi Moore e escrever no twitter sobre isso, produz e protagoniza um filme sobre um jovem com bom aspecto que seduz mulheres mais velhas e vive à custa delas (manda a decência que evitemos aqui a piada óbvia) enquanto continua a dormir com quem quer e bem entende. Há filmes pornográficos onde o sexo é menos gratuito e o guião um tudo-nada mais imprevisível.
AB
i, 2009.10.22


Sexta-feira, Outubro 23
 
desgraça

De: Steve Jacobs
Com: John Malkovich, Jessica Haines
Boa adaptação do romance homónimo do Nobel J. M. Coetzee. A queda em “desgraça” começa quando o professor universitário David Lurie se envolve sexualmente com uma aluna, numa África do Sul onde ainda latejam machismo e traumas raciais. Malkovich, igual a si próprio, acrescenta sordidez, perversidade e dúvida ao carácter do protagonista, e a verdade é que já tínhamos saudades de o ver como leading man.
AB
i, 2009.10.22


Quinta-feira, Outubro 22
 
um épico ao som de marante

AQUELE QUERIDO MÊS DE AGOSTO
De: Miguel Gomes
Com: Sónia Bandeira, Fábio Oliveira, Joaquim Carvalho
Num tempo em que algum cinema luso tenta exportar-se imitando os americanos, mas sem o know-how, o dinheiro e o talento deles, “Aquele Querido Mês De Agosto” triunfa em festivais de todo o mundo por ser singularmente português. Um filme magnífico que trata com humor e ternura o mais autêntico e comovente kitsch nacional, peregrinando pelas festas de Verão na província, o regresso dos emigrantes, procissões, filarmónicas e desgarradas. Miguel Gomes junta-se a António Ferreira e Marco Martins na linha da frente das esperanças do cinema português com uma prova de criatividade difícil de superar: drama ficcional e documentário, filme dentro do filme, personagens que são actores que são pessoas reais. Acaba por arrastar-se pelos bailaricos, demorando-se na trama ficcional (onde é mais fraco), perdendo-se de boas histórias da zona documental e alastrando a umas excessivas duas horas e meia. Mas é – termo técnico – um filme do camandro.

Veja também: Outro excelente cinema português que por aí há, como “Alice”, Marco Martins; “Esquece Tudo O Que Te Disse”, António Ferreira.
AB
i, 2009.10.21


Segunda-feira, Outubro 19
 
united colors of besson

O 5º ELEMENTO

De: Luc Besson

Com: Bruce Willis, Milla Jovovich, Gary Oldman

Um dos mais emblemáticos filmes da cultura pop dos 90’s. A criatividade visual de Luc Besson, os figurinos de Jean-Paul Gaultier e os contributos de Milla Jovovich, Tricky e Chris Tucker, entre outros, têm hoje um estranho sabor ultrapassado, mas eram, há apenas 12 anos, a crista da onda. “O 5º Elemento” é um excelente documento cyber-punk, na melhor tradição de “Blade Runner”. No ano de 2200 e qualquer coisa, o planeta enfrenta o fim de um ciclo cósmico de 5000 anos de paz. Agora, para criar uma luz que nos livre do Mal por novo ciclo milenar, é preciso reunir os quatro elementos do Universo a um misterioso quinto factor. O ponto de partida não será dos mais elaborados, mas Luc Besson cose o filme com uma ironia que o livra de ser levado a sério. O que aqui importa é a grande partitura visual do futuro e a forma sinfónica como as múltiplas acções decorrem até se encontrarem no auge do jogo. “Making Of” incluído.

Veja também: “Os Filhos Do Homem”, de Alfonso Cuarón, e “Gattaca”, de Andrew Niccol, outra interessante incursão na Ficção Científica de 1997.

AB

i, 2009.10.17



Domingo, Outubro 18
 
uma improvável elegia a los angeles

O SOLISTA

De: Joe Wright

Com: Jamie Foxx, Robert Downey Jr., Catherine Keener

Woody Allen disse, certa vez, que o único contributo de Los Angeles para a Humanidade fora a permissão de virar à direita nos vermelhos. E foi mais ou menos assim, por estas e por outras, que se criou a imagem que toda a gente tem de LA: vai-se lá para vencer e, depois, ser feliz noutro sítio qualquer. Scorsese, o dito Allen e mais um milhão de outros artistas, escrevem épicos sobre Nova Iorque volta e meia. Miami já teve direito a título em filmes e séries; Vegas está mais no nosso imaginário do que a terra onde nascemos; Chicago, S. Francisco, Filadélfia, Seattle, o Alaska, a Califórnia vinícola e uma série doutros sítios da América já mereceram o seu poemazinho. Só LA ficou para sempre como a cidade-objecto a quem ninguém faz declarações de amor.

E assim entramos naquele que é talvez o aspecto mais original de “O Solista”: é um filme estranhamente enamorado de Los Angeles. Encontra-lhe beleza nos túneis e nos viadutos, acústica no seu betão, uma certa grandeza moral na sua decadência. Até se arrisca a um breve périplo cultural – sim, cultural – pelas suas praças e edifícios históricos – sim, históricos. Em LA.

A partir daqui, “O Solista” é quase bom.

Primeira aventura americana do respeitável realizador britânico Joe Wright – “Expiação”, “Orgulho E Preconceito” – “O Solista” é a adaptação do livro de Steve Lopez, um colunista do LA Times que, um dia, descobriu um violoncelista genial a viver como sem-abrigo. Nathaniel Ayers fora, outrora, um promissor alunos da prestigiada Juilliard, mas as primeiras manifestações violentas de esquizofrenia afastaram-no da carreira e lançaram-no nas ruas e no total anonimato.

A história era boa por si só, mas isso dificilmente satisfaria os desejos de Dreamworks e Universal. Por isso, entregaram-se os papéis a duas grandes estrelas e com elas se fez o seguro de vida para a aventura nas bilheteiras. Robert Downey Jr. ficou com o papel do jornalista Lopez, Jamie Foxx com o do sem-abrigo génio-louco. Por uma qualquer razão misteriosa, vemos o filme e nunca pensamos em Steve Lopez e Nathaniel Ayers – pensamos que é o Robert Downey Jr. vestido de Robert Downey Jr. com os tiques de Robert Downey Jr., e Jamie Foxx vestido de sem-abrigo clownesco, cheio de talento, mas a pensar, entre cada deixa, se já chega para ganhar o Oscar ou se ainda é preciso fazer mais um maneirismo.

“O Solista” não se decide e fica-se por um meio termo perigoso. Por um lado, tem momentos arty, como numa cena em que a personagem de Nathaniel assiste ao ensaio de uma orquestra e, de repente, toda a tela se enche da experiência de cor que a música está a despertar dentro da sua cabeça. Noutro andamento, chega-se à frente como filme-protesto, na linha de “Crash”, elegendo como causa os milhares de sem-abrigo que, diariamente, adormecem nas ruas de LA. Mas, de um modo geral, comporta-se como blockbuster à procura de grandes resultados de box-office e umas nomeações aos Oscar. No fim, acaba por não ser nada. Quase que era, mas não foi. Fica-se pelo quase-bom, a mais ingrata das categorias.

Há muita coisa gratuita em “O Solista”: a entrada em cena da personagem de Steve Lopez, uns números cómicos com amostras de urina que fariam corar Mr. Bean e a personagem de Catherine Keener, francamente ultrapassada em matéria de importância por uma estátua de Beethoven. E há coisas óptimas, sobretudo quando Wright explora o Skid Row de LA. E um ou dois gags improváveis envolvendo Neil Diamond e a personagem de Nathaniel explicando por que prefere dormir nas ruas de LA: já tentara em Wall Street, mas era muito sujo.

AB

i, 2009.10.15



Sábado, Outubro 17
 
o dia da saia

De: Jean-Paul Lilienfeld

Com: Isabelle Adjani, Denis Podalydès

Adjani de regresso num filme com duas causas: direitos das mulheres e violência na escola. Ao lado de títulos como “A Turma”, perde em solidez, autenticidade e, sobretudo, personagens. Mas é daqueles que toda a gente devia ver, num tempo em que se decidiu achar que os professores têm uma vida muito fácil. Em complemento, uma pérola: a curta de António Ferreira “Deus Não Quis”, a partir da canção tradicional “Laurindinha”.

AB

i, 2009.10.15



Sexta-feira, Outubro 16
 
morrer como um homem

De: João Pedro Rodrigues

Com: Fernando Santos, Alexander David

Provavelmente, Rodrigues fará a carreira inteira com filmes sobre gays. Está no seu direito. O realizador é livre de fazer os filmes que quiser e o público de os ver ou recusar. “Morrer Como Um Homem” conta a história de um travesti muito parecido com Ruth Bryden. E, entre alguma insistência em exibir pénis e pés, alcança momentos intensos, irónicos e dum surrealismo que se saúda. Não fossem os actores e o áudio e seria um belo filme.

AB

i, 2009.10.15



Quarta-feira, Outubro 14
 
a evolução das espécies, segundo bret easton ellis

OS INFORMADORES

De: Gregor Jordan

Com: Billy Bob Thornton, Kim Basinger, Mickey Rourke

Los Angeles, 1983. A televisão fala de Reagan e de uma doença estranha que parece espalhar-se entre homossexuais. Mas trabalha para o vazio. Num apartamento luxuoso e branco como uma pureza mitológica, três jovens belos e louros, dois rapazes e uma rapariga, investem os corpos num ménage à trois. No seu gabinete em Hollywood, um produtor de meia-idade quer voltar para a mulher que retoca a maquilhagem noutro quarto belo e amplo, depois de dormir com o prostituto que também dorme com o filho e a namorada do filho. Ela não sabe se deve voltar para o marido e o marido não sabe por que quer voltar para a mulher, se ainda mantém um affair com a pivô do noticiário que, há bocado, falava de Reagan e vírus misteriosos.

Na recepção do condomínio de luxo, um rapaz baixo e gordo continua a sonhar, dentro da farda de porteiro, que, um dia, triunfará em LA. Ao mesmo tempo, na sua casa modesta longe da acção, um tio que, certa vez, chegou a ser actor e a subir os primeiros metros dessa rampa para a felicidade, dorme com uma menor enquanto mantém sequestrada uma criança, por motivos que nunca serão contados. Noutro ponto, na mesma Los Angeles, uma estrela pós-glam, pós-punk, mistura de Peter Murphy + Billy Idol + Iggy Pop, actua para uma multidão alucinada, sob um pano de fundo onde se lê “The Informers Tour”. Está a desfazer-se como um pedaço de vidro em câmara lenta – mas, em palco, cair é dançar.

“Os Informadores” adapta o livro de short stories de Bret Easton Ellis. O próprio Ellis divide a responsabilidade do argumento com Nicholas Jarecki. É um “American Psycho” com Hollywood em vez de yuppies. Mas o mesmo tratado sobre a frieza, superficialidade, vacuidade e amoralidade de gente obcecada com a sua juventude, a sua beleza, o seu prazer. É o mundo depois de lhe retirarem o coração e as vísceras, uma casa perfeita de bonecas, marionetas manipuladas por manequins, um Planeta Terra pós-apocalíptico onde sobreviveu tudo excepto a humanidade – mas os corpos ficaram lá.

Uma semana depois de “Fame”, é um novo regresso aos 80’s, mas, desta vez, pelo lado cru. O lado do fim do desejo porque já se tem tudo o que se quer, enfeitado com Ray-Bans, os cortes de cabelo mais lamentáveis desde o Neolítico, MTV, muitas drogas e ninguém para nos dizer o que devemos ou não fazer. Isto pela mão de um elenco ironicamente revivalista em si mesmo: Winona Ryder, Chris Isaak, Billy Bob Thornton e – tã-nã-nã-nã – Kim Basinger e Mickey Rourke. Sim. Juntos de novo num mesmo filme, nove vidas e meia depois, mas sem fritar ovos na barriga um do outro ou partilhar sequer uma mísera cena. Contudo, os pesos-pesados ficam só com os papéis secundários de has-beens, libertando a ribalta para um elenco jovem, desconhecido e que, na verdade, ainda gatinhava no tempo em que Reagan e a SIDA abriam noticiários.

Em Sundance, odiaram. A crítica internacional, de uma forma geral, tem demolido. Mas um homem tem que ser fiel àquilo em que acredita: “Os Informadores” são um bom filme. Vazio, frio e superficial, decerto, porque fala de vacuidade, frieza e superficialidade. Não podia ser doutra forma. De um modo perverso, aliás, “Os Informadores” são uma história de amor, o amor segundo Bret Easton Ellis. Um amor sem nome que irrompe envergonhadamente numa sociedade onde os sentimentos foram eliminados sem se dar por isso, como uma evolução da espécie. Livrámo-nos do amor como nos livrámos dos pêlos. Não há moral da história? Pois não. Por isso é que é Bret Easton Ellis. Não La Fontaine.

AB

i, 2009.10.08



Terça-feira, Outubro 13
 
orgulho e glória

De: Gavin O’Connor

Com: Edward Norton, Colin Farrell

É por filmes assim que muitos fogem do cinema norte-americano para as séries e para o – cunhemos a expressão – ‘world cinema’. A começar no título e a acabar na trama – polícias corruptos contra polícias bons a braços com problemas conjugais – tudo por aqui tresanda a lugar-comum. Não fossem Norton e Farrell (confirma-se: ainda sabe representar) e não haveria qualquer razão para perder duas horas da nossa vida com isto.

AB

i, 2009.10.08



Segunda-feira, Outubro 12
 
andando

De: Hirokazu Kore-Eda

Com: Hiroshi Abe, Yui Natsukawa

Uma obra poética superior, onde se prova que o cinema vive bem sem heróis, vilões, catástrofes e histórias de amor contra tudo e todos. Enquanto partilha connosco o encontro de uma família que assinala, ano a ano, o desaparecimento de um filho, Kore-Eda revela uma casa onde todos reconheceremos a nossa. A morte, o amor e as expectativas de pais, as certezas e fantasmas de filhos, num dos melhores filmes do ano

AB

i, 2009.10.08



Domingo, Outubro 4
 
cínicos até à medula

UM CONTO DE NATAL

De: Arnaud Desplechin

Com: Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Jean-Paul Roussillon

Nomeado à Palma de Ouro 2008, “Um Conto De Natal” conta a história dos Vuillard, uma família com a tragédia na massa do sangue. Dos quatro filhos, um morreu em criança com uma leucemia e sem dador de medula compatível; os restantes são adultos separados por guerras familiares. Mas, agora, é Junon, a mãe, quem tem um cancro e precisa de um dador de medula. Por isso, Abel, o pai, convoca os filhos, os netos e o sobrinho para passar o Natal e procurar a salvação, no sangue do seu sangue. Nem tragédia nem comédia, antes um meio termo de momentos de pura ternura e total violência. Tudo se diz e ouve com um sorriso nos lábios, um esgar cínico de máscara. Excepto quando as personagens estão a sós: aí, falam com o público. Olham a câmara e desabafam, como se a sala de cinema fosse, subitamente, um gabinete de psiquiatria com o nosso nome na porta. Um filme adulto e agradavelmente cínico. Pena a carestia de extras.

Veja também: Outras obras de Desplechin como “Reis E Rainha” ou “Esther Kahn”.

AB

i, 2009.10.03



Sábado, Outubro 3
 
ela queria viver para sempre; estes nem por isso

FAMA

De: Kevin Tancharoen

Com: Debbie Allen, Charles S. Dutton, Naturi Naughton

Se o leitor der licença, falemos de “Fame” e não de “Fama”. Comodidade de linguagem. Nada contra, mas digo “Fama” e imagino um daqueles programas de domingo à tarde, com actores a chorar e uma reportagem sobre o Cristiano Ronaldo, apresentado pelo Daniel Oliveira e sete raparigas. Adiante.

Pensamos em “Fame” e ouvimos a canção de Irene Cara. Sim, confessemos: o mais urbano-depressivo de nós já a cantou, pelo menos uma vez, num karaoke de Barcarena. Isto em primeiro lugar. Em segundo, vem-nos uma recordação agradável, mais ou menos indefinida. O genérico com a malta a dançar na rua, o tom outonal de Nova Iorque, gente a cantar e a dançar em cima das mesas. O resto é nostalgia dos 80’s. “Fame” provoca-a como “Raio Azul” provoca. Ou a Sabrina. Ou os sumos Tang. Alguém voltou a beber um Tang desde que se descobriu o buraco na Camada de Ozono? Eu sim. Aqui há um ano ou dois. Vi o cancro chegar, ao fundo do túnel. E fui gargarejar com água morna.

Talvez se passe o mesmo com “Fame”. Será que aquilo era mesmo assim tão bom ou é a nossa nostalgia que doura tudo?

Dito isto, porquê voltar a “Fame” e adaptá-lo ao cinema, vinte e tal anos depois? Por causa do sucesso de coisas como “High School Musical” e de programas de televisão como “Ídolos” e afins. Não se vê outro motivo.

É verdade que “Fame” já foi um filme, em 1980. Mas foi como série que se tornou um fenómeno. Por isso, o projecto enfermava dum pecado original praticamente impossível de ultrapassar: como adaptar uma longa série de televisão a um filme de duas horas? E, sobretudo, como legitimar um produto tão naturalmente televisivo enquanto objecto cinematográfico? Mas vê-se o “Fame” 2009 e nenhuma das perguntas é sequer razoavelmente respondida.

No essencial, este “Fame” é um musical, um produto que se veria com aceitável satisfação num teatro, porque os números musicais e de bailado são competentes e entretêm. Mas e o resto? As personagens, o conflito, o drama, os turning points, a história, por amor de Deus?!

O filme começa com um cartão anunciando que é dia de audições na Academia de Artes Performativas de Nova Iorque. Vinte minutos depois, vem outro cartão revelar que começou o primeiro ano. Mais meia hora e outro cartão avisa que já estamos no segundo. Outra meia hora e outro cartão adverte: chegámos ao último ano. Dali a pouco, o filme acaba. É tudo. Nada aconteceu, nada mudou, as personagens estão iguaizinhas, física, psicológica e artisticamente. Ninguém morre, ninguém nasce, ninguém sai, ninguém entra. E o coro pergunta: porquê?

A realização foi entregue a Kevin Tancharoen, um perfeito desconhecido com experiência em videoclips e produtos televisivos de dança. E o guião a Allison Burnnet, argumentista com pouco mais para mostrar que xaropadas como “Autumn In New York”. O resultado é uma coisa cheia de dinâmica – é certo – que se concentra mais nas aulas que nos dramas adolescentes das personagens – o que muito lhe agradecemos – e que faz bem a ponte entre os anos 80 e os 2000, transitando suavemente do Disco para o Hip-Hop e evocando, competentemente, o ambiente da série original. Mas as personagens e a história são usados como separador entre números musicais. E mesmo esses esbarram na falsidade do playback e na total vulgaridade dos temas. Como se não bastasse, a única mensagem que o filme tenta passar diz basicamente que é preciso acreditar e trabalhar muito e que o sucesso, por si só, não vale nada, se não tiveres amor e amigos.

Havia canções da Sabrina e episódios do “Raio Azul” com mais substância.

AB

i, 2009.10.01



Sexta-feira, Outubro 2
 
welcome

WELCOME

De: Philippe Lioret

Com: Vincent Lindon, Firat Ayverdi

Excelente proposta acerca de um iraquiano de 17 anos que quer juntar-se à namorada, em Londres. Bilal faz 4 mil km a pé até França, mas, ao chegar ao porto de Calais, torna-se apenas mais um imigrante ilegal proibido de seguir viagem. Bilal vai aprender a nadar com Simon, o instrutor de uma piscina pública, para atravessar a nado o Canal da Mancha. História de amor, “male bond” e, sobretudo, um belíssimo conto humanista.

AB

i, 2009.10.01



Quinta-feira, Outubro 1
 
preto no branco

ENTRE OS DEDOS

De: Tiago Guedes e Frederico Serra

Com: Filipe Duarte, Isabel Abreu, Gonçalo Waddington

Segunda longa da dupla Guedes-Serra. Numa obra, um acidente vitima um trabalhador. Paulo assiste, denuncia e é premiado com um despedimento que lança a sua vida e a família na auto-destruição. O áudio é do mais competente que se ouve por cá e a fotografia um excelente preto e branco que dramatiza, mistifica e esconde o lugar onde estamos. Sobretudo, elogie-se um conjunto de actores em estado de graça: Filipe Duarte, Isabel Abreu, Gonçalo Waddington, entre outros. No entanto, esta proposta neo-realista deixa demasiadas pontas soltas: uma mãe que se prostitui não se sabe bem porquê, um pai que vai para o desemprego por uma nobreza de sentimentos que desaparece no resto do filme, um avô que descamba para um racismo sem conclusão, etc. Além do mais, para se ser realista, não é preciso perder um terço de filme a mostrar gente a chinelar pelo corredor, a abrir cervejas ou a pôr o cinto de segurança. Mas são opiniões.

Veja também: “O Ódio”, Mathieu Kassovitz. E um clássico do neo-realismo: “Ladrões de Bicicletas”, Vittorio de Sica.

AB

i, 2009.09.30



Terça-feira, Setembro 29
 
verónica e o medo

A MULHER SEM CABEÇA

De: Lucrecia Martel

Com: Maria Onetto, Claudia Cantero, Cesar Bordón

Uma mulher atropela qualquer coisa na estrada, mas não volta atrás. E decide não olhar. Mas a realidade que se constrói dentro da nossa cabeça é tão ou mais real que a que existe fora. Para cada um de nós, fantasmas e sensações não têm menos valor ontológico do que as pedras ou os astros. Teixeira de Pascoaes não desdenharia esta narrativa peculiar de Lucrecia Martel, onde a personagem de Verónica decide ver o que quer ver e o que não quer ver e a câmara escolhe nunca se abrir em planos gerais, mostrando as acções apenas parcialmente e deixando zonas fora de campo. Os factos apontam para que Verónica tenha atropelado um cão, mas ela acha que matou uma pessoa. A radiografia que faz à cabeça, afinal, pode nunca ter sido feita. E, quando muda a cor do cabelo, tudo quanto fez com a cor antiga parece ter desaparecido. Está tudo dentro da nossa cabeça. Mas ninguém pode lá entrar para corroborar a nossa versão da verdade.

Oiça também: “Spaceman”, The Killers.

Leia também: “S. Paulo”, Teixeira de Pascoaes.

AB

i, 2009.09.26



Segunda-feira, Setembro 28
 
no armário da condição humana

OS HOMENS QUE ODEIAM AS MULHERES

De: Niels Arden Oplev

Com: Michael Nyqvist, Noomi Rapace, Lena Endre

Certo. Os fanáticos do livro dificilmente serão convencidos pelo filme. É certinho como o dia nascer amanhã, Garcia Pereira ser o cabeça de lista do MRPP às próximas 25 eleições e as revistas cor-de-rosa continuarem a ver amor em todo o lado. O leitor estabelece uma tal relação de propriedade com as obras que, de vez em quando, é preciso lembrar-lhe que ele apenas leu o livro; não o escreveu. Aqui, o filme tem de resumir 500 páginas em duas horas e meia. E talvez não passe a mesma arquitectura intrincada da narrativa. E talvez não dirija o mesmo ataque a um país invejado de fora, mas que, dentro, tresanda a decadência. E nunca fará a vontade a cada um dos 15 milhões de fãs que já compraram livros de Stieg Larsson. Mas isso, já lá diz o povo, nem Jesus Cristo agradou a todos. Nem Jorge Jesus.

“Os Homens Que Odeiam As Mulheres”, o filme, é um grande thriller. E há duas coisas que adoramos nos thrillers: serem mais inteligentes que nós e darem-nos aquele prazer ganancioso de ir vendo as pedras soltas caírem no seu lugar do puzzle. Num tempo de muita tentativa vã, “Os Homens Que Odeiam As Mulheres” preenche os dois critérios. Logo, bingo.

Stieg Larsson morreu antes de se tornar uma celebridade mundial. Mas, na sua Suécia, tinha um número considerável de inimigos – ponto que deve contar positivamente, acima de qualquer outro, na avaliação de um CV. Jornalista e fundador da revista “Expo”, denunciava actos xenófobos e corrupção. Mas o que ninguém sabia era que, à noite, escrevia furiosamente acerca de um alter-ego, Mikael Blomkvist, jornalista e editor da revista “Millenium”, num percurso que só deveria terminar com o décimo volume e a fortuna pessoal do autor. Não foi assim. Larsson foi fulminado por um ataque cardíaco aos 50 anos, com apenas três tomos escritos e nenhum publicado. Hoje, a fortuna granjeada, decerto maior que o sonhado, é dividida entre pai e irmão. A mulher, Eva, por não ser legalmente casada com Stieg, ficou de mãos a abanar – à atenção dos vetos às uniões de facto. Mas, ao que parece, já descobriu 200 páginas do quarto volume no computador do falecido, mais as sinopses de quinto e sexto. Um bom PPR. E um grande contributo para a perpetuação do culto à saga “Millenium”.

Há pouco, chamámos thriller a “Os Homens Que Odeiam As Mulheres”. Talvez seja redutor. Mas não vale levantar muito mais o véu, para que o espectador que não leu o livro e que, logo, não reivindica propriedade intelectual sobre o mesmo, seja surpreendido e guiado por uma intriga magnífica.

Fiquemos pelos pontos de partida: Mikael Blomkvist foi sentenciado com três meses de prisão por difamação de um grande industrial. Antes de cumprir a pena, recebe um estranho convite de outro grande financeiro: Henrik, patriarca da família Vanger, pede-lhe que investigue o desaparecimento de uma sobrinha, 36 anos antes. Numa história paralela, somos apresentados a uma personagem fabulosa, Lisbeth Salander, mulher animal, poço de energia negra, feia e bela. Enquanto enfrenta o seu guardião legal, é uma estranha hacker-detective privada pós-punk.

São duas horas e meia que passam num piscar de olhos e em que a informação é meticulosamente servida na exacta medida entre a nossa necessidade de compreensão e o gozo do mistério. Personagens densas, passados paralelos, num filme que se ri dos truques típicos dum Dan Brown e vai sempre escavar mais fundo aos confins da ética criminal. O nível A do policial contemporâneo em que a sofisticação de intrigas financeiras e soluções tecnológicas coabitam, no íntimo, com as mais eternas perversões humanas.

AB

i, 2009.09.24



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