noite americana

A quoi penses-tu, Séverine?


Quinta-feira, Julho 2
 
solondz e o feel-bad cinema

PALINDROMES

Realização: Todd Solondz

Com: Ellen Barkin, Emani Sledge

Dizemos que algo é palíndromo quando tem o mesmo sentido lido da frente para trás ou de trás para a frente, como uma capicua, mas aplicada a uma frase. Todd Solondz faz uma incursão pelo tema para dizer que o ser humano não muda. As personagens passam pelo tempo, trocam de nome e até mudam de cara e corpo, mas o que são no íntimo é o mesmo, irrecuperavelmente. Tal como Solondz. Depois do genial “Happiness”, já “Storytelling” chovia no molhado. “Palindromes” é, por isso, mais que uma redundância. Fica à beira do moralismo e do choque gratuito. O mote é o aborto; o desenvolvimento o do costume: adolescentes pervertidos com ambições vazias, em famílias aparentemente perfeitas, mas disfuncionais, preconceituosas e fúteis. Entre uma geração e outra, a incapacidade humana para a comunicação. Esperemos por “Life During Wartime” para concluir se Solondz era, de facto, o mais empolgante indy americano ou, simplesmente, o mais orgulhoso do seu cinismo.

Veja também: O belíssimo “Eu, Tu E Todos Os Que Conhecemos”, de Miranda July. E, por que não?, “Juno”, de Jason Reitman.

AB

i, 2009.07.02



Terça-feira, Junho 30
 
Breves notas sobre State of Play
(recuso-me a referir o título português)

1. Russell Crowe continua a confirmar-se como um dos meus actores preferidos.

2. Ainda se conseguem escrever bons argumentos, sem apelo a grandes fogos de artíficio, sexo escaldante ou anunciar a descoberta do Santo Graal;

3. Depois de assumirmos que Ben Affleck não vai dar mais do que aquilo e que está a dar o melhor que pode, ele não é assim tão mau.

4. Se na hora da internet o postal resiste (como diz um famoso postal francês), é bem verdade que na era dos blogs o verdadeiro jornalismo ainda pode ter espaço. Infelizmente, este filme é ficção.

5. Helen Mirren rocks.
DM


Segunda-feira, Junho 29
 
sentença na hora
DÚVIDA
Realização: John Patrick Shanley
Com: Meryl Streep, Philip Seymour Hoffman

A dúvida irrompe no colégio St. Nicholas: terá o Padre Flynn abusado de um aluno ou é, simplesmente, o único amigo da única criança negra da escola, uma criança, de resto, maltratada pelo pai? A “Dúvida”, realizado e adaptado pelo autor da peça de teatro original, assenta num guião de precisão milimétrica e grandes trechos de texto, valorizado por um leque excepcional de actores, todos reconhecidos com a nomeação ao Óscar: Philip Seymour Hoffman, Meryl Streep, Amy Adams e Viola Davis. Adaptação e elenco são, de resto, os destaques dos extras. O filme arranca grandes momentos, sobretudo nas homílias de Hoffman e nos seus duelos com Streep. Mas a verdade é que, no final, pouco importa se houve ou não um crime do Padre Flynn. Porque, em ordem a manter a “dúvida”, Shanley conserva as personagens dentro de um perímetro de segurança que as coloca à distância. E o que está longe, não toca.

Veja também: “Diário De Um Escândalo”, Richard Eyre; “A Troca”, Clint Eastwood.
AB
i, 2009.06.27


 
farrah fawcett


Farrah Fawcett será recordada, sobretudo, como um ícone de beleza. O célebre poster dos anos 70 em que surgia num fato de banho vermelho vendeu qualquer coisa como 6 milhões de cópias em todo o mundo. E, ainda em 2006, os homens australianos votaram-na uma das 50 mulheres mais sexy de todos os tempos. Começou a carreira na publicidade, aos 20 anos, e começou a afirmar-se na série “The Six Million Dollar Man”, ao lado de Lee Majors, o primeiro marido. Mas foi já em 76 que viria a produção que a transformaria numa das imagens de marca da cultura pop dos seventies: “Os Anjos de Charlie”, em que foi Jill Munroe. O público português recordar-se-á dela também na excelente composição da trágica Barbara Hutton, já no final da década de 80, na mini-série “Pobre Menina Rica”. Mais celebrada pela televisão que pelo cinema, Farrah Fawcett fez um dos seus últimos papéis às ordens de Robert Altman em “Dr. T. E As Mulheres”. A história da sua luta contra a doença que, ontem, a vitimou, fica contada no documentário “Farrah’s Story”.
AB
i, 2009.06.26


 
Críticos de cinema: os últimos renacentistas
Num mundo de cada vez maior especialização há ainda quem resista. O mais fascinante exemplo são os críticos de cinema. É fácil lembrarmo-nos de críticos de desporto especializados, o mesmo se aplicando à música - onde quem escreve sobre clássica não opina sobre pop. Mas não com o cinema. É raro encontrarmos um crítico de cinema especialista em terror ou em comédia. Não, o crítico de cinema opina sobre toda a 7ª arte com uma clarividência e mestria que rivaliza com as prodígios de Miguel Ângelo, Donatelo, Leonardo e toda essa geração. Escrevem sobre tudo.Isso diz bem de como a maioria dos críticos de cinema olha para o seu objecto de crítica: a partir de um tipo de olhar estilizado, sabe-se lá por que critérios, aplicável a toda a criação cinematográfica, seja ela qual for. Ou seja, é a obra que se tem de dobrar ao crítico e não o crítico à obra. É só a mim que isto me parece estranho. Claro que há excepções, mesmo muito excepcionais, de críticos que não fingem que estão a apreciar cinema de acordo com um cânone, misterioso e arcano, que consegue aferir e avaliar todo o cinema, qual pedra filosofal. Essas raridades afirmam-se pela opinião, a seguir ou não, em que só mesmo a experiência de vida conta. Esses são mais cronistas e ensaístas que críticos. Infelizmente há poucos. Já presumidos e boçais críticos há muito, a escrever sobre todo o cinema como se ele fosse uno e houvesse uma cartilha.
DM


Domingo, Junho 28
 
Star Trek Heroes

Trekkie não sou nem nunca fui pelo que chego até (mais) esta encarnação - melhor: revisitação - de uma das mais famosas instituições da ficção científica completamente sem expectativas. Apesar disto tinha já muitos amigos e conhecidos a dizerem muito bem de Star Trek e foi bom reparar que o título não cedeu à numeração ou aos títulos boçais das sequelas. Temos, portanto Star Trek, como se do primeiro filme se tratasse. E, de certo modo, é. Cronologicamente este é um Star Trek antes do Star Trek de Shatner e Nimoy (apesar deste último comparecer a este chamado). Mas é também um Star Trek completamente pensado para uma geração que só por pura militância terá apanhado a série original e os vários filmes que se fizeram em torno dela.

Pela parte que me toca creio que apanhei o Star Trek no Agora escolha mas posso estar enganado. Quando digo que apanhei estou a ser bastante rigoroso: nunca acompanhei a série, ia vendo episódios esparsos num e noutro dia. Talvez por isso tenha mais facilidade em me ligar (e menos criticar) a remodelação de casting. Sobretudo quando uma das mais carismáticas personagens - Spock - é protagonizada por Zachary Quinto, de quem sou grande fã na sua representação de Sylar, na série Heroes.

Confesso que vi todo o filme à sua volta, apesar de também haver Chris Pine (err...) e o sólido Eric Bana (em modo: por que não? - não sei porquê só conseguia pensar no Rodrigo Santoro a fazer de Xerxes em 300). E isso talvez possa ser tomado como mote para uma análise de todo o filme: este Star Trek vive de um bom argumento, é certo, mas vive sobretudo de uma constelação de jovens actores, cheios de competência e prontos a ir onde mais nenhum humano foi ainda. Isso é mais do que suficiente para relançar o trekkismo: é mesmo capaz de, finalmente cumprir um desígnio sempre apregoado: levá-lo até à next generation.
DM


Sexta-feira, Junho 26
 
o fabuloso destino de coco chanel

COCO AVANT CHANEL

Realização: Anne Fontaine

Com: Audrey Tautou, Benoît Poelvoorde

Os biopics são um género ingrato. A vida de um ser humano – ainda por cima, uma que mereça ser contada em filme – não cabe em duas horas. E a sequência lógica de uma biografia só por acaso corresponderá às exigências de criatividade e surpresa que se pedem ao cinema. O resultado mais habitual são filmes trabalhosos, aborrecidos, demasiado empenhados em passar informação, sem golpe de asa e quase inevitavelmente desproporcionais. Há excepções, claro – por exemplo, o genial “Man On The Moon”, biopic de Andy Kaufman por Milos Forman – que não sacrificam a magia do filme ao rigor de uma vida real, ou que optam, sensatamente, por não contar toda a história, mas apenas uma parte dela. É o que acontece em “Coco Avant Chanel”.

“Coco” é, sobretudo, isso: um filme sensato, doseado, elegante, sem artifícios desnecessários, como Coco Chanel teria apreciado.

O título é certeiro: “Coco Avant Chanel” é a rapariga Coco antes de se tornar em Chanel, o ícone da moda. Começamos no princípio do século XX, quando Gabrielle, órfã da mãe, entra num orfanato. Uma miúda vulgar, sem estudos, sem dinheiro, sem nada que anuncie ainda a vida glamourosa que virá. No primeiro andamento de três, acompanhamos as actuações de Gabrielle em cabarés baratos, ao lado da irmã; o número musical que inspiraria o petit nom Coco; e os esforços vãos por conseguir, enfim, o salto. Numa daquelas noites, Coco conhece Étienne Balsan, o rico proprietário de uma quinta nos arredores de Paris. A partir daqui, passamos ao segundo andamento: Coco evade-se da sua própria vida e impõe-se na propriedade de Balsan. Amanhã, pode sempre ser o dia de partir e voltar atrás. E pode sempre ser o dia em que começa o destino bem sucedido de que Coco jamais duvida.

É a partir daqui que a interpretação de Audrey Tautou se torna mais marcante. Uma pequena pedra de energia, inteligência e ambição. A presença que se impõe pelo pequeno espaço que ocupa, com algo de negro e brilhante. Começam os suaves acontecimentos em direcção à História, as mãos de Coco vão tocando mais e mais os tecidos, chocando e surpreendendo a sociedade ainda oitocentista, cheia de roupas excessivas, pesadas e absurdamente adornadas, até à rendição ao estilo simples e sofisticado de Chanel, que aproximaria mulheres de homens.

No terceiro e derradeiro andamento, chega o habitual romance: “Boy”, um industrial britânico que arrancará, pela primeira vez, Coco aos seus próprios passos. Mas, se essa sequência de acontecimentos sentimentais foi ou não importante para Chanel-après-Coco, fica por entender, exactamente, em que medida.

“Coco Avant Chanel” é um filme realizado e escrito por uma mulher – Anne Fontaine – adaptando a obra de outra mulher – Edmonde Charles-Roux, antiga editora da Vogue francesa – acerca de outra mulher ainda – Coco Chanel – uma mulher, por acaso, símbolo de um tema bem mais dado a mulheres – a moda. Mas, dentro daquilo que um pobre homem pode decifrar e escrever, resulta um filme equilibrado, sem grandes erros nem proezas, com uma respeitável vitória no modo subtil como vai revelando a inspiração e a estética de Chanel.

Quanto a Audrey Tautou, oito anos depois, continuará sempre a ter de lutar contra o fantasma de si própria enquanto Amélie Poulain. Mas, de todos os seus trabalhos posteriores – e foram bastantes – este é, muito provavelmente, o melhor. Uma personagem independente, forte e misteriosa, como se apresenta, a um só tempo, na bela e delicada sequência final. Agora, se Chanel era assim ou não, não sei. O melhor é perguntar a uma mulher.

AB

i, 2009.06.25



 
transformers: retaliação

Realização: Michael Bay

Com: Shia Laboeuf, Megan Fox

Felizmente, Michael Bay é realizador. Se fosse líder dum Estado, já não haveria mundo. Certamente proibido pela sua religião de usar planos fixos, Bay dá-nos duas horas e meia de helicópteros em chamas, porta-aviões a ir pelos ares e até destrói as pirâmides. As máquinas têm todas voz de velhos shakespeareanos e os bons salvam o mundo só com uma mão, enquanto arrastam Megan Fox com a outra, por entre o apocalipse.

AB

i, 2009.06.25



 
com outra? nem morta!

Realização: Jeff Lowell

Com: Eva Longoria Parker, Paul Rudd

Kate morre no dia do seu casamento. Devastado, Paul, o noivo, começa a consultar uma vidente. Tratando-se de uma comédia romântica, não será difícil prever que Paul e a vidente se vão apaixonar. Menos óbvio (não muito) é que o fantasma de Kate virá ao mundo para tentar pôr cobro ao romance. Pelo título, género e sinopse, não estaremos, decerto, perante uma obra-prima. Mas só há fórmulas batidas porque há público para elas.

AB

i, 2009.06.25



 
going to sant francisco

MILK

Realização: Gus Van Sant

Com: Sean Penn, Josh Brolin

O melhor comentário ao trabalho de Sean Penn foi feito em forma de pergunta por Robert De Niro, em pleno Kodak Theatre: “Sean, como é que convenceste o pessoal a dar-te tantos papéis de heterossexual estes anos todos?” Mas “Milk” é mais que Penn. O relato dos últimos anos de vida de Harvey Milk, primeiro homossexual assumido a ganhar uma eleição para um cargo público nos Estados Unidos da América, é uma obra maior de Gus Van Sant – um ódio de estimação largamente cultivado por este vosso humilde escriba. Era tão fácil descambar para o panfletarismo e Van Sant não cede um milímetro. Constrói uma espécie de compacto de realidade em que a câmara nos coloca lá, no meio da multidão, ouvindo Penn gritar ao megafone: “Hello. I’m Harvey Milk and I’m here to recruit you”. Sem moralismos, filmando o sexo com delicadeza e na penumbra, poupando nos sentimentalismos para deixar espaço à comoção genuína. Superior.

Veja também: “Shortbus”, John Cameron Mitchell, “Crying Game”, Neil Jordan, e“Brokeback Mountain”, Ang Lee. Não fará perigar a sua sexualidade.

AB

i, 2009.06.20



Terça-feira, Junho 23
 
a guerra pintada à mão

A VALSA COM BASHIR

Realização: Ari Folman

Vozes: Ari Folman, Ron Ben-Yishai, Ronny Daiag


Provavelmente, um dos melhores filmes de guerra de sempre. E é israelita e de animação. Ari Folman, realizador habitual de fitas de carne e osso, estreia-se no género, partilhando os méritos de um filme mágico com a ilustração de David Polonsky e a animação de Yoni Goodman. Folman foi, ele próprio, um soldado de Israel, mas “A Valsa Com Bashir” nasce, sobretudo, das memórias da Guerra do Líbano contadas por entrevistados que responderam a um anúncio de jornal. O processo é recordado meticulosamente pelo belíssimo making of que acompanha a edição de coleccionador. “A Valsa Com Bashir” ficou-se pela nomeação a melhor filme estrangeiro nos Óscares, mas acumulou prémios em festivais mundo fora. Um olhar singularíssimo sobre as memórias de guerra e o modo como o inconsciente daqueles que a fizeram, de armas na mão, lidou com essas recordações em ordem a sobreviver. Obrigatório.

Veja também: A obra de Elia Suleiman, para uma visão palestiniana.

Leia também: Amos Oz, “Contra O Fanatismo”.

AB

i, 2009.06.20



Sexta-feira, Junho 19
 
um anacrónico amor pela verdade

LIGAÇÕES PERIGOSAS
Realização: Kevin Macdonald
Com: Russell Crowe, Ben Affleck, Helen Mirren

Senhoras e senhores, é um prazer anunciar-vos que estamos diante dum sólido thriller de espionagem, romântico, old school, em que os jornalistas são heróis em busca da verdade. Se gosta do género, é valor seguro; se não gosta, não é aqui que vai mudar de ideias. Mas ponhamos a coisa doutra forma: não sendo uma obra-prima, “Ligações Perigosas” está tão bem amarrado, tão seguro, que até Ben Affleck vai, digamos, bem.
O problema é o título português. Se os direitos de autor funcionassem algures, os descendentes de Choderlos de Laclos estariam milionários, só à conta dos royalties vindos de Portugal. “Ligações Perigosas” e variações do mesmo mote têm dado para tudo. Filmes de espionagem, filmes eróticos, filmes em geral. Até porque todo o filme tem relações conflituosas entre personagens. Caso contrário, não tinha argumento. E é verdade que já se fizeram uns quantos filmes que pareciam não ter argumento, mas voltemos ao que importa ou já não saímos daqui.
“State Of Play” adapta a Londres da mini-série original da BBC e de Paul Abbott à capital norte-americana e à redacção do diário Washington Globe. Nos primeiros instantes, a bela Sonia Baker (Maria Thayer) morre misteriosamente nos carris do metropolitano. Sonia era funcionária de Stephen Collins (Affleck), jovem turco do Congresso a conduzir, presentemente, uma mediática investigação à PointCorp, empresa que faz negócio da Guerra, engrossando as fileiras do exército americano com militares profissionais, barra mercenários, barra soldados que não lutam por uma bandeira ou pela paz, mas por um ordenado. Pouco depois, sabemos que Sonia e Collins eram amantes, que Collins e o jornalista Cal McAffrey (Crowe) são amigos de longa data, que o Washington Globe para o qual trabalha Cal luta pela sobrevivência financeira, e que algo mais liga Cal a Collins e que esse “algo” não é necessariamente bom.
Russell Crowe, num papel que esteve para ser de Brad Pitt, compõe a figura clássica do jornalista cinematográfico que nos fez, durante anos, sonhar ingenuamente com uma nobre carreira na imprensa. Caótico e obstinado, temperamental e justo, a comer mal e a más horas, com um carro velho e uma secretária que é uma espécie de reconstituição à escala do caos após o Big Bang. Ele é o repórter da velha guarda, cheio de fontes e segredos, e é o porta-estandarte que carrega a bandeira do filme: uma declaração de amor condenada à morte. A declaração de amor à imprensa escrita, à maneira antiga, contra os blogues e os sites e o mais que vier.
Mas Crowe é só o ponta-de-lança de um plantel de luxo: Helen Mirren como editora da linha dura, Jeff Daniels congressista ínvio, Rachel McAdams a jovem jornalista das novas tecnologias, Robin Wright Penn, Jason Bateman, etc.
Porque, também na sua forma, “State Of Play” é um conservador: um bom filme faz-se com bons actores e uma boa história. O resto é, citando, a despropósito, Luiz Felipe Scolari, conversa para boi dormir.
Com texto co-assinado por Tony Gilroy, da saga Bourne, de “O Advogado Do Diabo” e de “Michael Claytou” e fotografia de Rodrigo Prieto, “State Of Play” é, sobretudo, uma boa notícia para os saudosistas do policial anterior a telemóveis, satélites e gps. É um anacronismo em relação ao próprio Cinema, claro, mas, sobretudo, em relação ao mundo. E não haverá muitas coisas mais cool que estar, tão orgulhosamente, fora de moda.

AB

i, 2009.06.19


 
sedução mortal


Realização:
Jonathan Levine
Com: Amber Heard, Anson Mount


Poucos adultos compreenderão a paixão dos adolescentes pelo terror, mas o género continua a sair que nem caipirinha em Copacabana. Aqui, um grupo de finalistas do liceu reúne-se num rancho para beber e tentar seduzir Mandy Lane, a rapariga que todos desejam. Um a um, vão aparecendo mortos. Eu sei. Augura-se o pior. Mas, apesar de tudo, houve bom gosto na banda sonora e até alguma ironia sobre a figura do adolescente.
AB
i, 2009.06.19


 
a ressaca

Realização: Todd Phillips
Com: Bradley Cooper, Ed Helms

Uma comédia realizada por um dos criadores do New York Underground Film Festival e co-argumentista de Borat que chega muito bem referenciada. A dois dias do seu casamento, Doug parte com três amigos para uma despedida de solteiro em Vegas. Mas, na manhã seguinte, ninguém se recorda dos acontecimentos da noite anterior. Doug desapareceu, há um bebé no roupeiro do quarto de hotel e um tigre na casa de banho. Ah! E há Mike Tyson.
AB
i, 2009.06.19


Quinta-feira, Junho 18
 
cenas da vida conjugal

REVOLUTIONARY ROAD

Realização: Sam Mendes

Com: Leonardo DiCaprio, Kate Winslet

“Revolutionary Road” começa onde muitos filmes terminam: no enfrentar da vida real, depois do deslumbre da paixão. Por aí, é louvável. 11 anos depois de “Titanic”, DiCaprio e Kate Winslet voltam a ser um casal, mas, agora, o único barco a ir ao fundo é o seu casamento. Uma luta contra a resignação, os sonhos perdidos e o último esforço por se provar que se é especial e não um entre o rebanho. Di Caprio e Winslet são óptimos actores, Sam Mendes um bom realizador, o texto saca algumas boas frases. Mas, em “Revolutionary Road”, nenhum chega a ser tão bom como gostaria. Karma de Mendes: faz tudo bem, mas é demasiado cerebral; onde deveria haver paixão, há um vidro a separar-nos dela. Assenta-lhe melhor o cinismo com que se estreou em “American Beauty”. As tentativas de ser um clássico (no noir com “Road To Perdition”, no filme de guerra com “Jarhead” e no drama familiar, agora) testemunham um excelente executante, mas pouco ou nenhum rasgo.

Veja também: Michael Shannon foi nomeado ao Óscar de melhor actor secundário com este filme. Veja-o em grande na liderança de “Histórias de Caçadeira”, nos cinemas.

AB

i, 2009.06.17



Segunda-feira, Junho 15
 
filhos de um woody menor

VICKY CRISTINA BARCELONA

Realização: Woody Allen

Com: Rebecca Hall, Scarlett Johansson, Javier Bardem

Duas amigas americanas vão de férias a Barcelona. Vicky está em véspera de casamento; Cristina vem livre para se envolver com o que encontrar. Dos três elementos enunciados no título só um funciona – a Vicky de Rebecca Hall. Scarlett Johansson confirma-se como produto sobrevalorizado e até em sex-appeal acaba a levar 10-0 de Penélope Cruz. E a Barcelona que aparece é superficial e óbvia, tal como Londres fora nas obras inglesas de Allen (já para não dizer que o acontecimento crucial do filme tem lugar em Oviedo). Woody Allen é Património Mundial e todos o amam, mas nem todas as razões para o amor serão legítimas. “Vicky Cristina Barcelona” é, provavelmente, o seu pior filme de sempre, mas, mesmo assim, houve quem o achasse o máximo. Personagens sem química, num argumento insosso onde a subtileza mandou notícias e é o narrador quem conta tudo o que a câmara não se dá ao trabalho de mostrar. Qualquer estudante de Cinema sabe que isso é mortal.

Veja também: “Deconstructing Harry”, o último Allen relevante (já remonta a ’97). “The Prestige”, para confirmar o talento de Rebecca Hall. “L’Auberge Espagnole”, homenagem melhor a Barcelona.

 AB

i, 2009.06.13



Sexta-feira, Junho 12
 
fellini, maradona e mais algumas razões para amar a vida

RUDO E CURSI

Realização: Carlos Cuarón

Com: Gael García Bernal, Diego Luna, Guillermo Francella 

Cada um de nós assiste a um filme do ponto de vista do seu lugar no mundo, num determinado instante. Isso é inultrapassável. Não há uma leitura objectiva e canónica para uma película. Este tem de ser o primeiro artigo da constituição do tipo que se senta a escrever uma – palavra tão amada como, sei lá, “EMEL” – “crítica” a um filme: escrever de tal modo pessoal que a sua visão se torne universal (Kant apreciaria, se fosse contemporâneo do Cinema).

Quando este cronista-a-partir-de-filmes se senta a ver “Rudo E Cursi”, apega-se àquele pequeno México que conhece, dos pueblos do interior, da gente pobre e sorridente, do espanhol preguiçoso e doce que por ali se fala. O México da música pirosa, mas a cuja genuinidade só resistem cepos sem coração ou sentido de humor. O México louco por futebol, mesmo que el balon insista em não entrar, há muito, para aqueles lados.

Quem não conhece nada disto, poderá não gostar tanto de “Rudo E Cursi”, mas compreenderá os porquês de o escriba ter gostado.

“Rudo E Cursi” é a Selecção Nacional do México. Escrito e realizado por Carlos Cuarón; produzido pela Cha Cha Cha do irmão Alfonso, de Iñarritu e de Guillermo Del Toro; protagonizado por Gael García Bernal e Diego Luna, sete anos depois da sua apresentação à sociedade fílmica, em “Y Tu Mamá También”. Tato e Beto são dois irmãos pobres como todos outros, a trabalhar nas bananeiras e a jogar futebol nos tempos livres, no pelado do povoado. Tato é avançado, solteiro e um lírico apaixonado pela música, não necessariamente por esta ordem. Beto é casado, guarda-redes e um pragmático preocupado com a vida real, não necessariamente por esta ordem. Até ao dia em que Batuta (um belíssimo Guillermo Francella), um empresário de jogadores, descobre os dotes futebolísticos dos irmãos e os leva para a Cidade do México, o D.F. de 22 milhões de habitantes, espaço para tudo o que é belo e horrendo, suave e perigoso, céu e inferno.

“Rudo E Cursi” é um filme de argumentista. Exemplarmente escrito, é conduzido pela voice-over de Batuta, em constantes analogias entre a vida e o futebol, a paixão e a camisola, o amor e a bola. E acompanha as múltiplas ascensões e quedas dos irmãos que ficarão para o futebol como “Rudo”, rude, e “Cursi”, provinciano, simples. Percebemos para onde corre o jogo quanto ao resultado final, mas não nas suas pequenas nuances. Não é líquido que, quando um irmão sobe, o outro caia. Não é líquido que a sorte ao jogo seja o azar ao amor. Não é líquida a origem da felicidade ou da tragédia.

Não é uma extraordinária obra de realização, mas Cuarón protege-se. Pouco futebol se vê para lá das quatro linhas, mas, assim, a mentira passa mais incólume. E, quando chega o corolário do filme – num evidente jogo decisivo entre os irmãos – estão lá, a um só tempo, todos os prazeres e paixões das duas equipas em campo: os amantes do futebol e os amantes do cinema.

É um filme para as massas e já se tornou o quinto mais visto de sempre no México. Quer, obviamente, que o espectador vá para casa de sorriso rasgado. E haverá – oh! Como sabemos que há – quem não perdoe tão capital defeito. Mas “Rudo E Cursi” tem uma moral bem mais amarga e cínica que o cliché que o blockbuster espalhou aos sete ventos – no cinema e, já agora, também na música e na, chamemos-lhe assim por comodidade de linguagem, literatura: que, para um tipo chegar aonde quer, basta acreditar. Não para Rudo e Cursi. Para Rudo e Cursi, um tipo chega aonde consegue. Há casas, estatutos, salários, bens e mulheres que, simplesmente, foram feitas para outro gajo qualquer. Não para nós.

AB

i, 2009.10.11



 
duelo de castas

Realização: Randall Miller

Com: Chris Pine, Alan Rickman, Dennis Farina

História de uns humildes produtores de vinho da Califórnia que, um dia, vão ganhar um concurso aos vinhos franceses. Qualidade visual de um telefilme de terceira categoria, personagens ridículas, dramas esquemáticos, enredo previsível e actores lamentáveis (com Chris Pine a confirmar a má impressão deixada em “Star Trek”, aqui com o extra de ter uma peruca inenarrável). Presunçoso, preconceituoso e estéril.

AB

i, 2009.10.11



 
histórias de caçadeira

Realização: Jeff Nichols

Com: Michael Shannon, Douglas Ligon

Na sua longa de estreia, Nichols arranca uma pérola indy. Um pai com duas famílias acaba de morrer. Aos filhos da primeira não deixou melhores nomes que Son, Boy e Kid; aos olhos da segunda, foi exemplar. Há dívidas por pagar, mas a vingança não salva ninguém. Uma obra feita de tempos, do pequeno Arkansas e pessoas normais a tentar superar a dor. Interpretação poderosa de Michael Shannon, num filme onde a paz é uma cerveja no alpendre.

AB

i, 2009.06.11



Quinta-feira, Junho 11
 
vai pedir àquela estrela

O VOO DO BALÃO VERMELHO

Realização: Hou Hsiao-Hsien

Com: Juliette Binoche, Simon Iteanu, Song Fang

Nem toda a gente aceitará esta ideia, mas o cinema não é, necessariamente, a arte de contar uma história – Lynch que o diga. A amplitude de possibilidades ao dispor de um realizador virtuoso permite-lhe dirigir-se directamente ao coração do público, sem passar pelo verbo ou, pelo menos, não lhe ligar grande importância. Contar a história de “O Voo Do Balão Vermelho” seria como tentar explicar a narrativa de um Picasso ou de um Bach. Há acontecimentos que estão lá para sentir e não para trocar numa casa de câmbio de palavras. A vitória de Hsiao-Hsien está na beleza de um balão vermelho que nos faz desprezar os planos em que não aparece. Um balão vermelho mais belo e desejável que Juliette Binoche. Um balão humano por cuja vida tememos quando cruza, perigosamente, os carris. E um balão-anjo que paira sobre o pequeno Simon. Paris, Binoche e a infância, pela primeira vez, filmadas sem recurso a um único grande plano.


Veja também: “Três Tempos”, de Hsiao-Hsien. Oiça também: Keith Jarrett. Leia também: “Uma Cana De Pesca Para O Meu Avô”, Gao Xingjian.

 AB

i, 2009.06.10



Terça-feira, Junho 9
 
índias ocidentais
















QUEM QUER SER BILIONÁRIO?

Realização: Danny Boyle

Com: Dev Patel, Anil Kapoor, Freida Pinto

Ainda agora saiu das salas e já chega ao DVD, numa edição que inclui, banda sonora, making of e um booklet acerca da adaptação do livro de Vikas Swarup. “Quem Quer Ser Bilionário?” arrisca-se a ser o “Música No Coração” do seu tempo. Como épico, luta contra a adversidade e musical, há-de encaixar que nem ginjas nos critérios largos da programação televisiva de Natal. Num ano em que Hollywood não produziu num filme “bigger than life”, a Índia de Danny Boyle varreu os Óscares, apesar do mal-estar provocado em Mumbai. Não será genial, mas também não se pede ao cinema que seja realista ou moral. “Slumdog” parte de uma bela ideia: a casualidade de um miúdo pobre que sabe todas as respostas num concurso de cultura geral pelo simples facto de as ter vivido a todas. A tensão do ambiente televisivo, as câmaras coreografadas pelos bairros da lata, a criança que se ergue triunfante do excremento e algumas cenas mais ficarão para sempre. A história de amor é que se dispensava, mas são as regras do jogo.


Veja também: “Millions”, onde Boyle já visitara o tema da do encontro inesperado com a fortuna. Ou “Sunshine”, o penúltimo e excelente filme do realizador, numa inesperada incursão pela Ficção Científica.

AB

i, 2009.06.06



 
bill killed

Morreu David Carradine. O actor de 72 anos foi encontrado enforcado no seu luxuoso quarto de hotel em Banguecoque, de acordo com fontes não identificadas da polícia contactadas pelo jornal The Nation.

Estrela da série dos anos 70 “Kung Fu”, Carradine, filho do lendário John Carradine, teve uma carreira de altos e baixos, mas era o único actor do mundo a poder gabar-se de ter trabalhado com Scorsese, Bergman e Tarantino. Nasceu em Hollywood e participou em mais de 100 filmes, séries televisivas e peças de teatro. Fascinado pelas culturas orientais, assinou ainda o livro “Spirit Of The Shaolin”, acerca da filosofia Kung Fu.

Tarantino devolveu-o ao estrelato com o papel de Bill no duplo “Kill Bill”. Aí, Bill explicou-nos a diferença entre o Super-Homem e os outros. Bruce Wayne é Bruce Wayne e disfarça-se de Batman. Peter Parker é Peter Parker e disfarça-se de Homem-Aranha. Mas o Super-Homem é o Super-Homem; Clark Kent é que é apenas o seu disfarce de homem comum. Agora, Bill morreu, quando preparava o seu novo filme “Stretch”. No Oriente, claro.

AB

i, 2009.06.05



Sexta-feira, Junho 5
 
o futuro como de antigamente

EXTERMINADOR IMPLACÁVEL: A SALVAÇÃO
Realização: McG
Com: Christian Bale, Sam Worthington, Moon Bloodgood

Custa a acreditar, mas o primeiro “Exterminador Implacável” estreou já lá vão 25 anos. Schwarzenegger ainda era só o melhor pior-actor-do-mundo, o VHS era tecnologia de ponta e o romance de Orwell tornara-se, subitamente, uma profecia algo imprecisa. Anos depois, James Cameron voltou à carga com o segundo volume e a ameaça do futuro tornou-se uma coisa líquida e com mais estilo. Bem mais tarde, chegou um terceiro tomo que já poucos viram e que parecia declarar o óbito da saga, na proporção justamente inversa ao florescimento da carreira política de Arnie. Ironia do destino, em Junho de 2009, é o percurso do governador musculado que está em queda livre enquanto o Exterminador se ergue outra vez. E sem Schwarzenegger. Ou quase.
O quarto volume tem um subtítulo extraordinariamente certo: “A Salvação”. Não derrubará o primeiro no coração dos fiéis, porque já não se faz, nos estúdios de Hollywood, tanto com tão pouco orçamento. Mas Exterminador volta a fazer-nos olhar com desconfiança para os nossos electrodomésticos. Negro, frio, metálico, de novo o hardware e não o software, as máquinas voltam a meter-nos medo, a fazer-nos suster a respiração a um canto da sala para não sermos encontrados.
A história é confusa. O argumento passou pelas mãos de metade da Writers Guild Of América e terminou assinado por John D. Brancato e Michael Ferris, autores de coisas boazinhas como “The Game” e lamentáveis como “Catwoman”. E o realizador é também um nada consensual McG (a verdade é que só o facto de um tipo se limitar a assinar “McG” irrita). Prepare-se para a balbúrdia entre passado, presente e futuros alternativos, pais mais novos que filhos, recordações de coisas que ainda não aconteceram e prenúncios de factos consumados. É basicamente impossível guiar-se na linha temporal de Exterminador e o mais certo é que ela nem faça sentido. Mas isso não é – acredite – importante.
Estamos em 2018, isto é, antes da data marcada no calendário do primeiro filme. Mas a teia de acontecimentos conduziu John Connor, o messias da resistência humana, a um tempo em que tem de salvar Kyle Reese, seu futuro pai, ainda adolescente. A sobrevivência da Humanidade depende, é claro, disso. A Skynet está no auge da sua revolução e as máquinas tentam exterminar o que resta de vida humana.
McG e o director de fotografia Shane Hurlbut pintam um mundo crepuscular, sepulcral, a lembrar “Children Of Men”. E conseguem que não se duvide, por um segundo, da orfandade a que se reduziu a espécie.
Infelizmente, Christian Bale não é um herói de acção. E isso, na verdade, já estava mais que visto nos seus dois Batman. Bale é um dos melhores actores da sua geração e é por isso que não funciona como “action hero” (pela mesma razão que, em sentido contrário, Schwarzenegger era tão bom canastrão e tão mau actor dramático). O seu John Connor é mais frio, mecânico e desumano que as máquinas e, quando fala, lembra um miúdo que engrossa a voz ao telefone para pregar partidas à vizinhança. No entanto, há Sam Worthington, a grande surpresa de “A Salvação”. O seu condenado à morte Marcus Wright rouba o filme a Bale e a John Connor. O drama está todo concentrado e simbolizado nele. E, se vier um novo volume – virá – é do seu destino que queremos saber, não do de Connor.
“Exterminador Implacável: A Salvação” tem ainda um romance incipiente entre Connor e Kate (Bryce Dallas Howard), um ou outro diálogo demagógico que se dispensava e um Schwarzenegger de CGI mais natural que o real. Tem uma futura leading lady de filmes de acção chamada Moon Bloodgood, um “I’ll be back” saído da boca mais inesperada e um cheiro nobre a tragédia. Não sei se fica na cabeça. Mas deixa uma memória de medo no corpo.

AB

i, 2009.06.04


 
o mundo é a nossa casa

Realização: Yann Arthus-Bertrand
Com: o Planeta Terra e rodagens em mais de 60 países


Estreia não hoje, mas amanhã, Dia Mundial do Ambiente. E com a particularidade de debutar, em simultâneo, em cinema, DVD, televisão e Internet. Em Portugal, a RTP2 assegura a transmissão a partir das 20h30; e na Praça Luís de Camões, em Lisboa, há projecção gratuita às 21h. Um documentário de preocupações ecológicas que quer chegar ao maior número de pessoas o mais depressa possível. Para quem ainda não foi convencido por Al Gore.

AB

i, 2009.06.04


 
star crossed - amor em jogo

Realização: Mark Heller
Com: Kyle Redmond-Jones, Teresa Tavares, Diogo Morgado


Enésima revisitação a “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, mas, desta vez, adaptado à modernidade e ao mundo do futebol. Um ponto de partida tão interessante como arriscado. Paul Collins e Inês Silva vão viver um amor dilacerado pela rivalidade não das famílias Montecchio e Capuleto, mas dos clubes Invicta e Castelo. Uma produção portuguesa com realizador, co-produtor, co-argumentista e protagonista britânicos.

AB

i, 2009.06.04


Quinta-feira, Junho 4
 
recursos humanos

O ODOR DO SANGUE
Realização: Mario Martone
Com: Michele Placido, Fanny Ardant


Carlo e Sílvia têm uma relação aberta. Ou – na expressão menos trendy de uma velha tia minha – são casados, mas têm lá a vida deles. Vinte anos de vida às vezes em comum, com uma casa em Roma, outra no campo e espaço para amantes e para fazer perguntas sobre eles. Carlo mantém uma relação extra-conjugal estável com Lù, uma rapariga mais masculina que muito rapaz. E tudo parece resolvido com leis muito próprias. Até ao dia em que Sílvia também arranja um amante que insiste em não ser passageiro.
Michele Placido, para nós, será sempre o Comissário Corrado Cattani, mas arranca aqui um excelente equilibrista a caminhar sobre o fio da razão. E Fanny Ardant é uma mulher cheia de mulheres dentro, inatingível e banal, exposta e indecifrável.
“O Odor Do Sangue” é um tratado cauteloso sobre o ciúme, a fidelidade e a velha pergunta sobre onde diabo está, afinal, o amor. É engenhoso no que deixa por ver, mas ligeiro no que não diz.

Veja também: Para um pouco mais de Martone, “Morte Di Un Matematico Napoletano” ou “L’Amore Molesto”

AB

i, 2009.06.03


 
lições de drama

A TROCA
Realização: Clint Eastwood
Com: Angelina Jolie, Jeffrey Donovan, John Malkovich


De Clint Eastwood diz-se, abundantemente, ser o último clássico do cinema americano. E o clássico, no cinema ou fora dele, está sempre na moda. Mas, neste caso, não é por mérito da intemporalidade do senhor Eastwood que “A Troca” faz o sentido que faz hoje; é porque o mundo andou para trás e a liberdade do indivíduo perante as sociedades já não é, de novo, um dado adquirido. Muito prejudicado pelo lançamento colado a “Gran Torino”, “A Troca” foi, talvez, o filme mais injustamente esquecido de 2008. A história de uma mulher a quem a policia impinge uma criança desconhecida, garantindo ser o seu filho desaparecido, raiaria o absurdo, se o absurdo não andasse, ultimamente, convertido em banalidade e a mensagem “a true story” não surgisse logo na abertura do filme. Angelina Jolie tem um dos seus melhores desempenhos de sempre; Jeffrey Donovan arranca um daqueles maus da fita que dão vontade de saltar para o lado de lá do ecrã e esbofetear e a fotografia é prodigiosa. Clint vintage.

Veja também: “True Crime”, outro esquecido de Clint Eastwood. Ou, num género bem diferente, mas lidando ainda com a dor da perda dum filho, “In The Bedroom”, Todd Field.

AB

i, 2009.05.30


 
o amor nos tempos do download

ZACK E MIRI FAZEM UM PORNO
Realização: Kevin Smith
Com: Seth Rogen, Elizabeth Banks, Traci Lords


Vivemos tempos difíceis. O futuro imediato do País parece refém de um karateka português na China, um preso preventivo é mais credível quando fala do que um Conselheiro de Estado, o Verão está pela hora da morte e o Benfica ficou outra vez em terceiro. Mas é uma das magias do Cinema – o seu completo autismo, o existir tão absolutamente alheado das notícias de jornal. Quando quase tudo o que é bom rareia, estreiam sete filmes numa só quinta-feira – um pequeno luxo, sobretudo quando há, como há, vários candidatos a prato principal no menu. Do promissor “Deixa-me Entrar”, de Tomas Alfredson, a “As Minhas Estrelas”, segunda estreia de Catherine Deneuve em duas semanas consecutivas.
Mas, ao olhar o cartaz, é impossível que a nossa atenção não se desvie, prontamente, para um título: “Zack E Miri Fazem Um Porno”. Porquê? Razões da complexidade da psique humana.
“Zack E Miri Fazem Um Porno” poderia ser só um título bem esgalhado. Mas não é. É um improvável filme pornográfico de amor. Ou melhor: um filme romântico-porno. Ou melhor ainda: a comédia romântica do ano, a partir da pornografia.
Zack e Miri são amigos desde sempre. Vivem juntos numa casa arrendada e quartos separados e nunca lhes passou pela cabeça apaixonar-se um pelo outro ou irem juntos para a cama. Não há química nem ciúmes nem esqueletos no armário. Já conhecem a intimidade menos romântica de cada um – a das manhãs, das ressacas, da normalidade e das casas de banho. O oposto do desejo. Até que, um dia, quando os seus ordenados de fura-vidas não chegam já para as contas e água e luz lhes são cortadas, decidem – e, a partir daqui, o título conta a história – fazer um filme porno.
Podíamos dizer que o filme não é gratuito, mas é. Tudo o que acontece, todos os obstáculos que saem ao caminho dos protagonistas, servem um desenrolar de acontecimentos óbvio e obrigatório na cabeça do argumentista / realizador Kevin Smith. Mas é um gratuito tão franco, tão descarado, que não se consegue dizer-lhe não. É descaramento, lata, e todos sabemos como essas virtudes abrem portas a quem as tem.
“Zack E Miri Fazem Um Porno” é tão desassombrado, vive tão bem com o seu gosto, que não pode ser mau gosto. Está para além disso. E para além da moral. É deliciosamente maduro na sua irresponsabilidade. Não trata a pornografia como um gueto, não a esconde atrás daquilo que, afinal, a torna objecto de desejo. É tão descomplexado e bem-disposto com as suas perversões, tão tranquilo com a sua intimidade de latrina, que se torna surpreendentemente confortável, limpo e – por que não dizê-lo? – cândido.
Tem o atrevimento de um “Felicidade”, de Todd Solondz, ou de um “Eu, Tu E Todos Os Que Conhecemos”, de Miranda July, mas, ao contrário destes, só quer ser um “feel-good movie”. E é, sem dúvida, o “feel-good movie” dos últimos tempos.
Com as profissionais do porno Traci Lords e Katie Morgan num elenco de actores razoavelmente desconhecidos entre nós, mas com culto numa certa cena indy americana, “Zack E Miri” alterna momentos absolutamente hilariantes com uma improvável tese acerca do romance, a partir do plateau dum filme pornográfico low-budget.
Se o filme não vai mais longe, é porque, a dada altura, se compraz com a sua invulgaridade e deixa de tentar surpreender, deixando o último terço correr ao sabor de um desenlace mais que esperado. Afinal, depois de arriscar o que arriscou, Kevin Smith bem se podia ter aventurado a um final mais épico, mais pornograficamente belo, em vez de uma solução a saber, por paradoxo que pareça, a telefilme para toda a família num sábado de chuva.
Em todo o caso, “Zack E Miri” é “one of a kind”. Não é obrigatório, mas quase.

AB

i, 2009.05.28


 
as minhas estrelas

Realização: Laetitia Colombani
Com: Kad Merad, Catherine Deneuve, Emmanuelle Béart


Robert é um comum mortal que vive apaixonado pelas estrelas de cinema. Mas, para se aproximar do intangível, quase perde o real. Quando entra em casa de Deneuve ou janta com Emmanuelle Béart, somos nós que ali estamos, com elas. Há Maria de Medeiros de regresso, um gato e uma “psigatalista”. Uma declaração de amor à ilusão do cinema para redescobrir o amor pela verdade quotidiana. Tão agradável como superficial.

AB

i, 2009.05.28


 
o último condenado à morte

Realização: Francisco Manso
Com: Ivo Canelas, Maria João Bastos, Nicolau Breyner


Ao contrário de muito cinema português, “O Último Condenado À Morte” tenta ser apenas um filme normal. E consegue. Sofre dos nossos habituais problemas rítmicos, mas é um esforço honesto, com boa fotografia, bom áudio e um argumento inteligente. Sem a história de Matos Lobo, talvez Portugal não tivesse sido pioneiro na abolição da pena de morte. Pena que o filme se limite a informar-nos disso, sem o aprofundar.

AB

i, 2009.05.28


Segunda-feira, Junho 1
 
o contributo de bush para a história do cinema

O CORPO DA MENTIRA

Realização: Ridley Scott

Com: Leonardo DiCaprio, Russell Crowe, Mark Strong 

O amor e a morte eram os temas da arte. Depois, vieram os grandes estúdios e fizeram um ajuste para: amor e extermínio. O filme romântico vai bem com tudo, o de guerra escolhe de acordo com o zeitgeist: Vietname, Guerra Fria, a II Guerra – que nunca sai de moda – e, agora, a guerra contra o terror. N’ “O Corpo Da Mentira”, DiCaprio e Crowe são agentes da CIA à caça de terroristas no Médio Oriente. Só que um está lá, a sangrar e a olhar nos olhos, e o outro dá-lhe ordens ao telefone dos Estados Unidos, enquanto vai passeia as filhas. Os extras incluem um olhar sobre a mestria de Ridley Scott (é o seu quarto filme na região) e uma entrevista a David Ignatius, autor do livro original. Não há nada de especialmente errado em “O Corpo Da Mentira”, mas tudo sabe a déja vu: os agentes infiltrados, a vocação Big Brother da guerra moderna, os jogos de confiança e traição. E do visionário que fez “Blade Runner” há 27 anos espera-se sempre mais do que fazer apenas bem feito.

Veja também: Para uma pesquisa por “Ridley Scott + Guerra”, sem dúvida “Black Hawk down”. Para uma pesquisa por “Leonardo DiCaprio + jogo duplo”: “The Departed”.

AB

i, 2009.05.27



Terça-feira, Maio 26
 
teatrinho coen apresenta:

DESTRUIR DEPOIS DE LER

Realização: Ethan & Joel Coen

Com: George Clooney, Francês McDormand, Brad Pitt

A dada altura dos extras, George Clooney diz que é um filme sobre gente muito estúpida que faz coisas. É difícil contradizê-lo. Depois da consagração com “Este País Não É Para Velhos”, os Coen apresentaram “Destruir Depois De Ler”, onde um disco com as memórias de um ex-CIA vai parar às mãos de dois empregados de ginásio, que lhe tentam, depois, extorquir dinheiro. É uma comédia de enganos metida dentro dum ambiente de filme de espionagem. Para quem acha graça ao universo dos Coen, vai bem servido; para aqueles que, como eu, ainda não perceberam a piada, é o vácuo completo. O prazer que Ethan & Joel aparentemente têm em transformar actores em bonecos irrealistas e irritantes leva a pensar se não estariam melhor no teatro de marionetas. E a inutilidade de “Destruir Depois De Ler” é, afinal, resumida no seu diálogo final: “O que aprendemos nós, Palmer?” “Não sei, senhor.” “Eu também não sei.” “Acho que aprendemos a não voltar a fazer isto.” “Sim, senhor.” Oxalá.

Veja também: Qualquer coisa com mais substância. Se preferir ficar pelos Coen, “O Barbeiro”.

AB

i, 2009.05.24



 
o natal é quando um cínico quiser

UM CONTO DE NATAL

Realização: Arnaud Desplechin

Com: Catherine Deneuve, Mathieu Amalric, Chiara Mastroianni 

Assim de repente, não estou a ver outro universo em que haja tanto preconceito como no cinema. A ala supostamente intelectual tem o preconceito contra o blockbuster; a ala comercial tem o preconceito contra o filme independente, ou pior, europeu, ou pior ainda, iraniano ou afegão ou coisa que o valha; a ala do público tem o preconceito contra a crítica; todos têm o preconceito contra o cinema português que, por sua vez, tem o preconceito contra o público português.

O cinema chega a toda a gente. E ninguém tem de ser um especialista na matéria para ter uma opinião sobre um filme. Daí este clima em que ninguém reconhece autoridade a ninguém, ao mesmo tempo que todos têm a certeza de que a sua opinião é que está certa e quem não concorda com ela é, obviamente, um imbecil preconceituoso.

Citando o correio do leitor da última “Mulher Moderna”: enfim, vidas.

Vem isto a propósito de “Um Conto De Natal”, escrito e realizado por Arnaud Desplechin, nomeado à Palma de Ouro em Cannes 2008.

“Um Conto De Natal” conta a história dos Vuillard, família perseguida pelo cancro ou um cancro ela própria. Junon (Catherine Deneuve) e Abel (Jean-Paul Roussillon) tiveram quatro filhos. O mais velho morreu em criança com uma leucemia e sem um dador de medula óssea compatível; os três restantes são adultos separados por guerras familiares. Mas, agora, é Junon, a mãe, quem sofre de um cancro e precisa de uma medula compatível. Por isso, Abel convoca os filhos, os netos e o sobrinho Simon, para passar o Natal e tentar encontrar um dador.

Os problemas dos Vuillard estão-lhes, portanto, literal e metaforicamente, na massa do sangue. E são genéticos e hereditários. O seu encontro não termina em tragédia nem em comedia, mas antes num meio termo extraordinário de momentos de pura ternura e total violência. Tudo se diz ou se ouve com um sorriso nos lábios, um sorriso cínico de máscaras que é, provavelmente, a única forma de a vida prosseguir e ser possível. Excepto quando as personagens estão a sós. Quando as personagens estão a sós – como acontece a Junon ou ao filho do meio, Henri (o magnífico Mathieu Amalric, que os detractores do cinema europeu podem sempre ter visto como vilão no último Bond) – falam para nós, público. Olham a câmara e desabafam, como se a sala de cinema fosse, subitamente, um gabinete de psiquiatria com o nosso nome escrito na porta.

Ficam muitas coisas por explicar. Há actos cujas consequências não chegamos a ver. Mas isso é porque a história daquela gente não foi compactada para caber em duas horas e meia. Nós chegámos lá com os filhos para passar o Natal e saímos no fim, quando o Natal acabou. Eles já lá estavam antes e lá continuarão depois. E, a menos que nos voltem a convidar, não voltaremos a ter notícias suas.

Tudo isto faz de “Um Conto de Natal” um filme raro, adulto, inteligente e agradavelmente cínico.

Mas, para outros, será, simplesmente, “um filme francês”. Ou, como diz, logo na primeira frase, a wiki-crítica seleccionada no IMDB: “tédio como só os franceses conseguem fazer”.

Nota final para um assunto realmente importante: “Um Conto De Natal” junta Catherine Deneuve e a filha Chiara Mastroianni. A senhora Deneuve consegue a proeza de, aos 65 anos, ter um décimo das rugas da filha, de 36. É o problema do admirável mundo novo das cirurgias plásticas – um tipo já não pode olhar para a mãe para ver como é que a filha vai ficar. Tem é de ter a certeza de que aponta correctamente o número de telefone do cirurgião.

AB

i, 2009.05.22



Segunda-feira, Maio 25
 
à noite no museu II

Realização: Shawn Levy

Com: Ben Stiller, Hank Azaria, Robin Williams


O guarda-nocturno Larry tornou-se um empresário de sucesso e, sem a sua protecção, os habitantes do Museu de História Natural vão ser encaixotados e transferidos para outras paragens. O tema dos bonecos que ganham vida quando as luzes se apagam é mais velho que a Salve Rainha, mas há algo de genial em fechar na mesma sala Napoleão, Ivan, o Terrível, Al Capone, Lincoln, Einstein e até Óscar, da Rua Sésamo.

AB

i, 2009.05.22



 
amazing grace

Realização: Michael Apted

Com: Ioan Gruffudd, Benedict Cumberbatch, Albert Finney


Tentativa bem intencionada, mas aborrecida de fazer um épico sobre William Wilberforce e a luta pela abolição do tráfico negreiro no Reino Unido. O argumento, montado em sucessivos flashbacks, não empolga; e o elenco, encabeçado por um protagonista sem carisma, não ajuda. O pior: a estranha tensão gay entre Wilberforce e o primeiro-ministro. O melhor: as breves aparições de Albert Finney e Michael Gambon.

AB

i, 2009.05.22



Domingo, Maio 24
 
saramago, ponto e vírgula

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

Realização: Fernando Meirelles

Com: Julianne Moore, Mark Ruffalo, Gael Garcia Bernal

  

“Blindness”, no seu título original, deu que falar muito antes de existir. Depois, quando já existia, e como sempre acontece às obras cinematográficas que adaptam obras literárias, foi arrasado por quem leu “o livro”. “O livro” é sempre melhor. Muito, incomparavelmente, nem-se-fala-nisso melhor. Mesmo que o próprio autor do raio d’ “o livro” diga que o filme é fantástico. Enfim. Bardamerda com o leitor e seu livro. O filme adapta a obra de Saramago acerca duma inexplicável epidemia de cegueira branca. Não se sabe por que começa, nem como se transmite, nem como se cura, se é que se cura. Meirelles, um dos maiores realizadores da actualidade, filma uma cidade sem nome que é o mundo moderno inteiro. E consegue deixar-nos, no fim, a impressão estranha de ter assistido a algo muito feio e muito belo. E isso é notável. Não é um filme perfeito, mas esse fica para os leitores d’ “o livro” fazerem, quando quiserem ter essa bondade.


Veja também: “O Fiel Jardineiro” e “Cidade De Deus”, para se deslumbrar com a mestria de Meirelles. E filmes com argumento original, para que nenhum leitor de livros o venha chatear com comparações.

AB


i, 2009.05.20



Quinta-feira, Maio 21
 
Bénard "cinema" da Costa
Confesso que gosto de personalidades incontornáveis. Daquelas que vencem a nossa própria opinião. Explico: quando há uns anos houve que discutir a recondução especial de Bénard da Costa, na direcção da Cinemateca, fui dos que entendi que não vinha mal ao mundo em haver sangue novo, novas visões, novos projectos. Esta opinião não se deveu tanto a não gostar ou discordar das opções de Bénard da Costa à frente da Cinemateca mas muito mais por, em princípio, discordar de soluções prolongadas à frente de cargos públicos. Dito isto, a minha admiração por Bénard não podia ser maior, mesmo quando não concordava com as suas opções. Até porque, Bénard da Costa não negava nada que tivesse que ver com o cinema. Prova disso, de que quero aqui fazer nota pública, foi a forma como acolheu um bando de desconhecidos, autores de um blog intitulado Noite Americana, quando, em dado momento, dirigiram à Cinemateca uma carta solicitando a possibilidade de passar um filme na esplanada, resultado de votação online. Bénard acolheu a ideia em poucos dias e assim passámos Blade Runner. Esta pequena história serve bem para ilustrar a ideia de serviço público, que eu espero que a Cinemateca mantenha, mas não serve para descrever na sua totalidade o contributo inestimável de Bénard da Costa para a divulgação do cinema em Portugal. Felizmente, há, pelo menos, duas gerações, que são disso testemunho e creio que não haverá melhor testamento do que esse. Cada um poderá recordar de Bénard, tendo tido acesso aos seus textos, aos seus filmes, à sua Cinemateca, o que preferir. Eu tenho uma memória que me acompanhará para sempre, por todas as razões e mais algumas: a programação dos 100 dias, 100 filmes de Lisboa 94, Capital da Cultura. Para mim, o Tivoli e a Cinemateca tornaram-se, durante alguns meses, o centro do mundo e posso dizer que, quase todo o cinema que importava ver o vi nesse ano. Bénard da Costa não terá tido toda a responsabilidade pelo evento mas a forma como a Cinemateca sempre esteve disponível para todos momentos culturais do país e para todas as colaborações que divulgassem o cinema e artes afins espelha bem o que acho ser o legado de Bénard. Por isso lhe agradeço, por isso o recordarei.

DM


Domingo, Maio 17
 
a segunda morte de bobby sands


FOME

Realização: Steve McQueen

Com: Michael Fassbender, Stuart Graham

Um filme de Steve McQueen. Só que este Steve McQueen está vivo, é negro, britânico e um jovem realizador de mão cheia. “Fome” não é um murro no estômago; é uma carga de pancada no corpo inteiro. Passou razoavelmente despercebido pelos nossos cinemas e a extraordinária actuação do prodigioso Michael Fassbender como o herói irlandês Bobby Sands foi olimpicamente ignorada pelos Óscares. Um filme cru sobre a violência na prisão de Long Kesh, a greve de fome e as últimas seis semanas de vida de Bobby Sands. Não se pode dizer que Fassbender tenha encarnado Sands; ele entrou-lhe nos ossos. McQueen filma a nudez, filma a merda, filma a dor e faz-nos sentir tudo, sem mais julgamentos. E arrisca um plano de 17 minutos e meio que já entrou para a História. Ficamos, ansiosamente, à espera de um novo filme desse Steve McQueen II. E de “Inglourious Bastards”, de Tarantino, para voltar a ver Fassbender, desejavelmente, de melhor saúde.

 

Veja também: Comédias românticas, filmes de acção, desenhos animados… Qualquer coisa que o tire do estado de espírito em que “Fome” o vai deixar.

AB

i, 2009.05.16



 
anita no vaticano

ANJOS E DEMÓNIOS

Realização: Ron Howard

Com: Tom Hanks, Ewan McGregor, Ayelet Zurer

Nunca percebi bem o alarido à volta de O Código Da Vinci. Talvez se prenda com o seguinte: como sabemos, há uma imensa maioria que não lê ou que só o faz com a regularidade com que passa o cometa Halley. Vai daí, quando essa massa lê, de facto, um livro, considera o evento tão extraordinário que desata a falar dele ao mundo inteiro. “Li um livro! O Código Da Vinci! Tens de ler, pá! Se eu consegui, tu também consegues!”

Agora, depois de anos de filmes, documentários, teorias sobre a Mona Lisa e uns poucos milhares de sucedâneos literários, chega ao cinema “Anjos E Demónios”, a adaptação da obra anterior de Dan Brown, mas que o filme trata como sequela. A febre dificilmente se repetirá – imagino que seja como o sarampo: apanha-se uma vez em pequenino e fica-se imune – mas dará, certamente, para mais umas quantas capas de revista.

“Anjos E Demónios” começa na Suíça. No acelerador de partículas do CERN, os cientistas conseguem algo inimaginável: produzir uma amostra de anti-matéria. Como sempre acontece nos filmes, a coisa que não pode cair nas mãos erradas cai nas mãos erradas. No Vaticano, morre o Papa e são raptados os quatro cardeais preferidos à sucessão. Robert Langdon, maldito na Praça S. Pedro pelas peripécias do filme anterior, mas respeitado especialista em simbologia, é chamado a ajudar e, rapidamente, descobre que todos os acontecimentos estão ligados e que quem está por detrás de tudo é – digam comigo – uma organização secreta. Há 200 anos, os Illuminati teriam querido injectar demasiada Ciência na Igreja e a Igreja mandou-os passear. Agora, eles voltam para a vingança: vão matar, um por um, hora a hora, os cardeais raptados e, depois, fazer explodir o próprio Vaticano com a mais recente jóia da coroa da Ciência: a anti-matéria roubada na Suíça. Felizmente, têm a amabilidade de deixar charadas que, Langdon, é claro, resolverá. Afinal, foi para isso que as pessoas pagaram o seu bilhete.

“Anjos E Demónios” é melhor que “O Código Da Vinci”, mas isso não é grande proeza. É mais consistente, menos teórico e os enigmas, apesar de tudo, são um bocadinho mais complexos que os de “O Clube Das Chaves”. Mas os pecados capitais continuam todos lá.

Nunca li Dan Brown, mas, se os filmes lhe fazem justiça, os problemas começam nele: não é um homem culto. Não pode ser um homem culto, mas quer, à força toda, que pensemos que é. Há muito episódio de muita série de televisão com mais investigação que a que ele faz para um romance inteiro. Os temas religiosos, a Paris e a Roma que ele explora nestas obras, até poderão parecer muito exóticas a um americano pouco viajado, mas, para um europeu de matriz cristã, são, inevitavelmente, entediantes. Poderá não ser assim, mas a sensação que fica ao ver ambos os filmes é que Brown foi uma vez a Paris, outra a Roma, leu meia dúzia de livros e desatou a escrever. Em Paris, era o Louvre e a Mona Lisa; em Roma, o Vaticano e a Piazza Navona. Se viesse a Lisboa, enfiava o mistério num lugar muito enigmático, muito pouco conhecido: o Marquês de Pombal.

Depois, há coisas que, simplesmente, não fazem sentido. O Vaticano não chama um professor americano que, ainda por cima, odeia, para lhe explicar a sua própria História. Esse professor pode parecer um génio aos anglo-saxónicos quando descobre que a pista fala de um anjo e que há um lugar que se chama “d’angelo” e que “angelo” quer dizer “angel” e que, por isso, é lá que está o que eles procuram. Mas isso  - e quase todos os mistérios da trama se resolvem assim – é por de mais evidente para qualquer latino.

Robert Langdon não existe como personagem; é uma soma simples: Tom Hanks + o cabelo de um doador anónimo + as coisas que Brown aprendeu na meia dúzia de livros que leu. Por isso, o resultado final de “Anjos E Demónios” é um razoável policial, intercalado com longos monólogos sobre conspirações religiosas, para garantir que o público percebe o que está a acontecer. Salva-se Ewan McGregor, que é o único tipo do mundo que consegue ser tão convincente a fazer de bomba sexual como de padre penteadinho.

AB

i, 2009.95.14



 
cada um o seu cinema


Realização: Wim Wenders, Nanni Moretti, Manoel de Oliveira, etc.

Com: Michel Piccoli, David Cronenberg, Takeshi Kitano, etc.

Quando um alien lhe perguntar o que é o Cinema, mostre-lhe apenas este filme. Duas horas e 33 curtas dos maiores realizadores do mundo. Feito por ocasião dos 60 anos de Cannes, só agora chega às nossas salas. Evidentemente desequilibrado, tem pérolas de Moretti, Cronenberg, Wenders, Yimou, Lynch, Kitano, Salles e até uns surpreendentemente hilariantes Von Trier e Oliveira (este a pôr Bénard da Costa na pele de Papa).

AB

i, 2009.05.14



 
no limite do amor


Realização: John Maybury

Com: Keira Knightley, Sienna Miller, Cillian Murphy

No início, lembra um certo cinema britânico competente, mas sem chama. Engano: “No Limite Do Amor” não tem chama nem competência. Numa espécie de II Guerra vista da alcova, as personagens apaixonam-se, desapaixonam-se, atraiçoam e perdoam sem razão. Pelo meio, há um retrato de Dylan Thomas que nos tirará a vontade de o ler por anos. O filme é escrito por uma mulher (a mãe de Keira Knightley) e protagonizado por mulheres. Pode ser que uma mulher o entenda. Mas duvido.

AB

i, 2009.05.14



 
Ricky Gervais, agora em Nova Iorque


FANTASMAS NA CIDADE

Realização: David Koepp

Com: Ricky Gervais, Téa Leoni, Greg Kinnear

Há duas formas de ver “Fantasmas Na Cidade”: como um filme de sábado à tarde ou como um filme com Ricky Gervais. Em Portugal, certamente, pensou-se nele como um filme de sábado à tarde, por isso foi directamente para DVD. Mas, para os fanáticos de Ricky, descobrir nos escaparates um filme com ele que não chegou aos cinemas soa a heresia. E agarramo-nos ao DVD e pensamos, magnanimamente: “perdoai-os, Pai. Não sabem o que fazem”.

Gervais é o herói do humor, que nos deu os seminais “The Office” e “Extras”. Vê-lo numa produção americana, num formato com tantas regras pré-estabelecidas como a comédia romântica, tem o seu quê de estranheza – será mais ou menos o mesmo que ouvir Sakamoto a tocar o “Parabéns A Você”. Mas só por assistir a essa experiência científica vale a pena ver “Fantasmas Na Cidade”, uma rara produção modesta de David Koepp, um dos argumentistas predilectos do blockbuster.

Ainda por cima, há Téa Leoni. E, para ver Téa Leoni, este escriba que vos fala via até um filme esquimó, se Téa, de repente, decidisse ir aquecer o Pólo.


Veja também: “The Office” e “Extras” (para ver Gervais no seu habitat natural); ou “The Family Man”, de Brett Ratner (para Téa em todo o seu esplendor).

AB

i, 2009.05.13



Segunda-feira, Maio 11
 
tão fictício como a verdade


A TURMA
Realização: Laurent Cantet
Com: François Begaudeau e “a turma”

Um dos melhores filmes de 2008 chega ao DVD em dois discos: um com o filme de François Begaudeau, outro com o de Laurent Cantet.

Passo a explicar: o filme, feito a partir do livro do antigo professor de liceu François Begaudeau,, tem o próprio Begaudeau como protagonista e professor. Com um elenco integralmente composto por não-actores, lembra Cidade De Deus na excepcional qualidade global de representações. Os alunos respondem pelos nomes reais e, a todo o tempo, não vemos um filme – estamos lá dentro daquela sala, com o consentimento indiferente daqueles adolescentes. As relações, a espessura das personagens e os jogos de poder brutalmente consistentes, criam a extraordinária ficção da realidade.

Mas só com os extras do segundo disco percebemos como A Turma é, na verdade, de quem a assina: Laurent Cantet. Um making of que acompanha todo o processo de trabalho até à coroação em Cannes, revela o homem que conduziu um conjunto de miúdos a compor algo mais real que o real: todos os dias, em todos os takes, serem quem são: gente que ainda não sabe, exactamente, quem é.

AB

i, 2009.05.09



Sábado, Maio 9
 
a astrologia segundo o oráculo de abrams

STAR TREK

Realização: J.J. Abrams

Com: Chris Pine, Zachary Quinto, Eric Bana


Não sei se o leitor partilhará deste sentimento, mas, lá em casa, de cada vez que se ouve falar de remakes, prequelas e revisitações em geral de clássicos do cinema, treme-se de medo. Os mágicos, profissionais que me merecem tanto respeito como as esteticistas, tiveram pelo menos a virtude de aprender, há muito, uma lição importante: nunca repetir os truques. Nos filmes, não é assim. De Indiana Jones à Guerra Das Estrelas, para citar exemplos recentes, o resultado foi – termo técnico – poucochinho. Com a agravante de serem obras mexidas pelos próprios autores, Spielberg e Lucas. Com o pudor que eles não tiveram para com o seu legado, muitos fanáticos limitaram-se, simplesmente, a fechar os olhos, e qual brigada de trânsito, a condescender com um “desta vez passa. Mas que isto não se repita”.

Star Trek corria riscos terríveis. Por um lado, nunca foi tão amado como a dita Guerra Das Estrelas; por outro, tem uma legião de seguidores loucos que atende pelo nome de trekies e que, calculo, não lhe perdoará uma liberdade criativa. Captain Kirk e demais, nunca tiveram o humor e a capacidade de fazer sonhar de Han Solo, sabres de luz e família Skywalker, mas Star Trek tinha umas trevas, uma claustrofobia, difíceis de repetir. Mais: padecia do problema de não ter um autor. Passou de mão em mão, foi da televisão para o cinema, do cinema para a televisão, teve gerações posteriores e anteriores, até acabar numa colecção confusa em que a nossa grande memória consiste nas orelhas pontiagudas de Mr. Spock.

Contra todas as apostas, Star Trek, o novo, sem subtítulos, é um belíssimo filme de ficção científica, acção e drama espacial, que serve tanto aos conhecedores como àqueles que só agora sejam apresentados à série.

Pela mão do realizador J. J. Abrams, estrela em ascensão desde Lost, e dos argumentistas responsáveis por produtos não consensuais como Mission Impossible III ou The Island, Star Trek pisa caminhos perigosos, passa mesmo junto ao acidente e salva-se sempre.

A história leva-nos para antes da mítica Enterprise. Numa abertura tensa e ágil, dá-nos a vida, a morte e os pecados originais que sustentarão todo o filme e os próximos volumes que, decerto, por aí virão. De seguida, percorre os caminhos cruzados dos jovens James Kirk, Spock, Scotty, Dr. Bones e restantes. E, por fim, saca um truque da manga – dos tais que Copperfield aconselharia a não repetir – que liberta a nova saga da obrigação de respeitar, passo a passo, as peripécias da matéria original: uma brecha no contínuo espaço-tempo, com regressos ao passado e ao futuro que alterarão, para sempre, o decurso dos acontecimentos.

É verdade que há umas piscadelas de olho aos adolescentes. Chris Pine, o jovem Kirk, é uma personagem estereotipada, rebelde sem causa e mulherengo que faz melhor que os outros porque não segue as regras (bocejo). Que as meninas se passeiam de mini-saia na nave, coisa, certamente, muito útil no Espaço sem gravidade. E que faz, em geral, uma certa confusão ver a novinha Enterprise entregue a tão grande percentagem de imberbes. Mas Zachary Quinto (grande nome, a propósito), o Sylar de Heroes, convence, minuto a minuto, como Spock. E há Winona Ryder com rugas, um magnífico Eric Bana como vilão e, um pequeno doce: Leonard Nimoy, o próprio senhor Spock, a esbanjar carisma.

Não sei que pensarão os trekies. Não sei que pensará a facção gosto-de-jogos-de-computador-por-isso-acho-A-Múmia-um-ganda-filme. Mas há uma inteligência, um arrojo e um certo travo a coisa à moda antiga neste Star Trek de Abrams que merece, no mínimo, umas quantas estrelas do tal Espaço onde nenhum homem alguma vez entrou.

AB

i, 2009.05.07



 
as operações saal

Realização: João Dias

Com: Siza Vieira, Nuno Portas, Alexandre Alves Costa

 

Primeira, é a estranheza. Depois, qual Coca-Cola, entranha-se. As Operações SAAL – Serviço de Apoio Ambulatório Local – tem a inteligência de deixar imagens e deponentes falar por si, sem tomar lados. A reboque do projecto de dar casas a milhares de pobres no pós-25 de Abril, brota um documentário sobre um Portugal que sobrevive e se repete, capaz de grandes feitos como tratar, com a mesma dignidade, Siza Vieira e marquises.

AB

i, 2009.05.07



 
a zona


Realização: Sandro Aguilar

Com: António Pedroso, Isabel Abreu


A Zona promete, mas não cumpre. Tem um olhar misterioso que leva a ambientes estranhos, habitados por desconhecidos. Estamos tão perto que sentimos as feridas, os pêlos, até a clausura de uma incubadora. Depois, a pouco e pouco, o mistério resulta, simplesmente, em obscuridade. E damos por nós a não querer saber quem é aquela gente, como aconteceram as feridas e, muito menos, de que zona se está, afinal, a falar.

AB

i, 2009.05.07



Domingo, Abril 26
 
a luta de classes


Arranca hoje o 6º Indie Lisboa, festival de cinema independente. Se confirmar a tendência de crescimento, terá ainda mais público, para mais salas e mais filmes. O Indie – o petit-nom atesta bem do seu reconhecimento – é um fenómeno de popularidade justo e que se saúda. Mas causa estranheza. Não consta que os portugueses sejam extraordinários consumidores de cinema. Ainda por cima, independente.

E há mais casos. O DocLisboa, o Festival de Cinema Francês, o Gay & Lésbico, o italiano, o digital, etc. Em poucos anos, Lisboa, que invejava ao Porto o Fantas, encheu-se de ciclos para nichos de cinema, com saldo inequivocamente positivo. Como é que isto aconteceu? É um mistério.

Nos circuitos comerciais, todos os anos as salas perdem público. Na televisão, as longas-metragens tapam buracos de grelha. No aluguer, os Blockbuster vivem dias difíceis. Em franco crescimento, só a pirataria. Será que, entre festivais, os cinéfilos passam o ano a descarregar filmes ilegalmente na net? Não seria uma boa notícia. Mas não creio.

O que uma rápida peregrinação pelos vários certames comprova é algo mais simples: os portugueses não são loucos por cinema, mas há um pequeno grupo que sim. O grupo que vai a todos os festivais de cinema, aos bons festivais de música, que consome bons produtos culturais e escreve, na blogosfera e na imprensa, acerca deles, enquanto desdenha do resto do país que devora os Gouchas, as Fátimas, as Praças da Alegria, as novelas.

Porque, em Portugal, desconfio, há um fosso maior que o que separa ricos de pobres – o que afasta a cultura da ignorância.

Só não sei qual deles é mais preocupante.
AB

Publicado no Meia Hora de 5ª, 23 de Abril.


Segunda-feira, Abril 6
 
Hoje há uma pequena pérola cinemomusical na cinemateca
21:30 LISBON CALLING

21:30 Sala Dr. Félix Ribeiro
Ciclo 'POÉTICAS DO ROCK'

THE GREAT ROCK AND ROLL SWINDLE
De Julian Temple
Reino Unido, 1980 - 104 min.
Não Legendado

LISBON CALLING é um curto documentário feito por Anna da Palma para o canal de televisão ARTE sobre o movimento punk em Lisboa nos anos 70. Com música dos Xutos e pontapés. Em 1986, mais precisamente a 17 de Março, aconteceu nesta casa uma das maiores enchentes e uma das suas mais inesquecíveis sessões. De tal forma assim foi que se fez uma segunda sessão extra, imediatamente a seguir. O filme era precisamente THE GREAT ROCK AND ROLL SWINDLE, na sua primeira – e tanto quanto julgamos saber – única exibição em salas de cinema em Portugal. Precisamente 23 anos depois será que a reacção e o entusiasmo serão os mesmos?

Sessão com a presença de Greil Marcus


DM


 
I Skoni tou hronou
é o título do próximo filme a estrear de Theo Angelopoulos, cujo argumento é co-escrito com Tonino Guerra e que conta com a magnífica Irene Jacob (mas também Willem Dafoe ou Alexandra Maria Lara) para uma viagem à europa do meio do século XX.

Para matar as saudades deste belo cineasta grego.

DM


 
Breves notas sobre a Mulher Sem Cabeça
1. Nos últimos anos tenho visto algum cinema argentino, quase sempre bom. A Mulher sem cabeça confirma esta toada.

2. Ver no início, a referência a El Deseo, a produtora dos irmãos Almodóvar, ajuda.

3. Creio que o melhor do filme, para além da experiência de um mundo que, apesar de tudo, nos é distante (a nós europeus, e mesmo se a Argentina tem muito do velho continente), é a demora do tempo sobre a personagem principal, Vero (de Verónica).

4. Há uma preocupação em estar de fora sentindo como se estivesse dentro, o que é passível de provocar um conjunto de sobressaltos emocionais ao espectador, reflexos da própria emocionalidade contida, mas adivinhada, da personagem principal. Ao pé dela, todas as outras são, não apenas personagens secundárias, mas vazias.

5. Sobretudo é um filme que sendo retrato social, retrato psicológico não se preocupa em sê-lo, não faz disso um fim ou manifesto, mas consegue-o, na passada, enquanto busca ser sobretudo uma luta entre a ética, a tontura e a inevitabilidade de se estar só.

DM


Segunda-feira, Março 23
 
a leitura possível

The Reader, Stephen Daldry

Depois de The Reader, Kate Winslet já veio dizer que não se volta a despir em Cinema. É assim. Dão-lhes um óscar e elas deixam de se esforçar.
AB


Quarta-feira, Março 18
 
mas há quem vá bem em watchmen II



Carla Gugino (Sally Jupiter aka Silk Spectre).

Vista em Entourage e Sin City. Mas também a podemos recordar do vídeo de "Always", dos Bon Jovi. Concordarão, dadas as circunstâncias, que não nos mancha a reputação intelectual.
AB


 
mas há quem vá bem em watchmen I


O espantoso Jackie Earle Haley (curiosamente, também visto em Little Children, tal como Patrick Wilson).
AB


Terça-feira, Março 17
 
identidades secretas

Watchmen, Zack Snyder

É voz comum entender os papéis de pessoa com deficiência como trabalho particularmente difícil para um actor. Mas dão sempre óscar. Fazer de alcoólico também vale. Ou de vilão dos piores. Ou de homossexual. São processos de transformação complexos, mas, além de valerem, inevitavelmente, o reconhecimento do público e o respeito dos pares, permitem aos actores exceder-se, ultrapassar-se, mostrar todo o repertório de truques.

Depois, há os papéis de super-herói. O actor tem acções e expressões limitadas por um fato e uma máscara ridículos; tem de fingir - além de todas as emoções pedidas pelo guião - que acredita mesmo naquilo, no que é, no universo que o rodeia; e, ainda por cima, jamais valem óscares.

De resto, nunca se sabe o que vai acontecer a partir do momento em que um tipo entra dentro do fato de super. Houve actores sofríveis a brilhar muito alto quando deram corpo aos Comics. Houve magníficos actores que lá foram picar o ponto e cumprir com competência. E há actores bem talentosos como Patrick Wilson que, em vez de super-heróis, resultam na atrapalhada mistura dum fato de carnaval dispendioso com um figurante tímido a chocalhar dentro dele.
AB


Sábado, Março 14
 
O visitante
para o João

Eu tinha-o visto uma vez. Um fim-de-semana, no Porto, onde o tinha conhecido. Quando ele veio a Lisboa ofereci-lhe guarida. Mas com as vidas trocadas só o vi quando já estava quase de partida. Encontrámo-nos para um jantar e copos no Bairro Alto. Se não me falha a memória, fomos à minha muito querida Adega do Tagarro. E, nessa noite, fartámo-nos de conversar, ele contou-me a razão da sua vinda a Lisboa, uma história de amor, apaixonada, sofrida, intensa. Mesmo levando em consideração que é sempre mais fácil falar com estranhos, nunca deixo de me comover com pessoas que em mim confidenciam. A partir daquele momento podíamos tornar-nos grandes amigos, podíamos nunca mais nos ver mas haveria aquele momento, esse encontro. Mas ainda houve mais. Na manhã seguinte, quando de raspão nos despedimos: eu a ir para o trabalho, ele a regressar ao Porto, ofereceu-me um presente de hospedagem, chamemos-lhe assim: um álbum de Fela Kuti, Open/Close. Isto já foi há uns anos valentes.

Agora, há umas semanas, ao ver a apresentação de O Visitante, vejo, a certa altura, esse mesmo álbum, de Fela Kuti, que se tornou, com os anos, uma delícia para mim, a ser entregue por uma das personagens a outra. Mas essa coincidência não foi nada comparada com o simbolismo que tal álbum assume no filme, que só esta semana vi e agora vos recomendo. Muito. O filme de Thomas McCharthy, conta com o excelente Richard Jenkins, num papel contido de fragilidade e procura. Mas também com um trio magnífico, composto por Haaz Sleiman, Danai Jekesai Gurira e Hiam Abass, respectivamente como Tarek, Zainab e Mouna, a família onde o professor Walter Vale se redescobre enquanto – é preciso sublinhar isto – ser humano. E aqui no meio, Fela Kuti, surge como gesto de reconhecimento mas, sobretudo, como um gesto enriquecimento: tal como, há uns anos, o João, agradecendo-me, me abriu as portas para o maravilhoso mundo de Fela Kuti, também Tarek, ao agradecer a Thomas, com esse mesmo álbum, viria a dar-lhe um novo rumo. A não perder.

DM

(publicado no Meia Hora de quinta-feira passada)


Sexta-feira, Março 13
 
o testamento do sr. eastwood


Um tipo assiste a Gran Torino e maldiz a hora em que perdeu mais uma madrugada a ver os Óscares. Podemos tentar acreditar na bondade da Academia, no sentido comercial das distribuidoras, mas, quando vemos mais uma pérola de Clint Eastwood chegar às salas a meio de Março, no fim da festa de endeusamento de Kate Winslet e do encontro de irmãos holly-bollywoodiano de Slumdog Millionaire, só temos uma palavra a dizer: gaita.

Seja ou não o último trabalho de actor do senhor Eastwood, este é, em boa verdade, o seu testamento. A confissão de um conservador com a bandeira americana plantada no alpendre, capaz de vencer o preconceito e apaixonar-se pelos vizinhos asiáticos. Gran Torino é Clint a assumir a velhice, a dificuldade em compreender a geração seguinte (veja-se a cena breve em que Walt, a sua personagem, desanca o jovem Trey, interpretado pelo seu filho, Scott Eastwood); é Clint a olhar a morte nos olhos e a dizer, com todas as letras, que morrerá em paz.

Este pequeno-filme-com-tudo-dentro é ainda uma lição especial: aprende a ser homem com Clint Eastwood em apenas duas horas. Precisas duma mulher, um trabalho, um carro e uma caixa de ferramentas. Também podes ter uma arma, mas este Clint já não é Dirty Harry. Harry, no final, só confiaria em si e resolveria o assunto pelas próprias mãos; Walt – e é difícil não nos comovermos com isto – oferece-se em sacrifício para que seja a sociedade a fazer justiça.
AB


Sábado, Março 7
 
de Vicky Cristina Barcelona, salva-se, na melhor das hipóteses, um terço


Vicky (Rebecca Hall).
AB


 
um dos filmes mais esquecidos da temporada

Changeling, Clint Eastwood

E ainda: uma rara ocasião de ver Angelina Jolie num filme com mais razões para ser visto que apenas Angelina Jolie.
E: nada como uma história verídica para nos lembrar quão recomendável é que o poder se distribua pelo maior número de mãos possível.
AB


 
a salvação não é aqui


Slumdog Millionaire – que, entre nós, para não colidir com o nome do concurso televisivo franchisado que está no eixo do seu enredo, se chamou, com alguma bizarria no câmbio monetário, Quem Quer Ser Bilionário? – ainda é o filme de que se fala.

Bem sucedido e polémico, granjeou aquilo de que poucos se podem gabar: fama e infâmia. Pessoalmente, tenho dúvidas que seja merecedor de qualquer delas. Danny Boyle não é um director de intervenção ou, pelo menos, já não é. Veja-se o excelente Millions, por exemplo, quando já andava a debruçar-se sobre esta temática da fortuna súbita e produto do acaso. Parece-me que só anda à procura de histórias felizes e diversão. Não quer dizer nada mais profundo. Não anda a meter dedos em nenhuma ferida. Não tem qualquer mensagem humanitária. Mas não tem de ter.

Por isso, estranho o coro de críticas que continua a vaiar Slumdog conforme passa. Na Índia, podem dizer-lhe o que quiserem, que é mau para o país, que não corresponde à realidade. Mas que, em Portugal, se escreva mais ou menos o mesmo já acho estranho. Diz-se que não é verosímil, que quer chocar, que Boyle foi à Índia fazer o seu filme e que esse seu filme nada tem a ver, de facto, com a Índia.

Não entendo. Isto é cinema, não uma enciclopédia. É um filme, não um programa político. É arte, não uma organização de ajuda humanitária. O cinema não tem de ser realista nem profundo; tem é de ser bom. E Slumdog Millionaire é mais ou menos bom. E tem Freida Pinto, que alguns andam a dizer que é portuguesa embora ela própria afirme nada saber sobre isso, mas que é linda. Nesse ponto, ao menos, estamos todos de acordo.
AB

Publicado no sítio do costume, quinta passada.


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